
Ouro Preto sempre foi pródiga numa infinidade de personagens curiosas. Muitas, passaram para a história do país e até mundial. O clima, a topografia e a arquitetura, juntos ao aspecto histórico-cultural privilegiados da cidade, possibilitam sua transformação, quase constante, num frenesi turístico, com ótimas festas e gente de toda a sorte e parte do planeta. Quem mora ou morou lá sempre tem referências interessantes, ou não, de pessoas que marcaram ou deixaram recordações pelo que aprontaram e coisas parecidas. São as famosas “figuras ouropretanas”.
O que nós mostraremos marcou época para muita gente que residiu ou frequentou a cidade nos anos setenta. Ele morava em Belo Horizonte, mas não saía de lá na Semana Santa, Carnaval, Festa do Doze e fins de semana prolongados. Em qualquer oportunidade, festiva ou não, chegava na véspera e escolhia uma república para se hospedar. A “Nau Sem Rumo”, “Purgatório” e “Sinagoga” eram suas prediletas. Nesses lugares, conviveu com algumas gerações de moradores, os estudantes, tornando-se mais conhecido na área que alguns novatos. Era o que poderíamos chamar de figurinha carimbada e atendia pela alcunha de “Pernambuco”.
Muito bom de conversa, se entrosava rapidamente com todos, inclusive com outros visitantes das repúblicas, servindo-lhes para de cicerone, principalmente nos passeios etílicos. Assim que ganhava confiança, convidava-os para o bar predileto ou o mais próximo, onde se tornava o centro das atenções com seu enorme repertório de casos e lero-leros. No boteco, já devidamente acomodado, pedia sempre um maço de “Minister” e uma pinga com mel. Servia-se à vontade com as cervejas disponíveis na mesa, os tira-gostos e o que mais viesse. Com seu papo, às vezes agradável ou polêmico, aguçava a roda com assuntos que variavam entre música, política, futebol, vida alheia e outras. A turma se entusiasmava com os assuntos e sempre aconteciam calorosos debates provocados por ele. Nesse momento o nosso amigo aproveitava a distração dos presentes para sair à francesa e sem a devida colaboração financeira. Com o passar do tempo e a frequência em que atuava como um serrote contumaz, “Pernambuco”, ficou bastante manjado na praça e seu comportamento era objeto de muitos comentários, principalmente por parte dos mais prejudicados e seu novo apelido, “Serrote”, ainda que discretamente, difundiu-se por todos os lugares que ele frequentava. Também de sua parte, já desconfiado disso, ele, espertamente, adotou o rodízio, seja geográfico ou de turma, a fim de atuar por mais tempo nos seus intentos e prolongar a sobrevida de suas visitas à cidade.
No “Festival de Inverno” do ano de setenta e nove, a cidade encontrava-se muito movimentada e colorida no mês de Julho, período em que também se realizava o vestibular da universidade local. Da mesma forma que das outras vezes, ele chegou, deixou sua mochila com os pertences e os cobertores numa república onde se hospedaria, e saiu para as suas habituais serrotagens. Sem que desconfiasse de nada, pessoas de seu convívio há muitos anos, haviam armado uma casinha de caboclo para ele. Isso para lhe darem uma bela lição, pois estavam cansados dos prejuízos proporcionados pelo “caro amigo”. Sabendo de sua chegada à cidade, várias turmas se espalharam pelos bares do circuito, à espreita da caça. Ao fazer sua manjada via-sacra chegou a um deles, onde o pessoal aprontava grande farra. Cumprimentou cada um, contou um caso novo, pediu o de sempre e foi se sentindo, mais uma vez, em casa. A turma estava muito solícita e a mesa repleta de bebidas e comidas. Quando o Pernambuquinho, depois de algumas cervejas, compareceu ao banheiro, os companheiros, com a complacência dos garçons que sabiam da história do rapaz, saíram de fininho como estava programado. Ao voltar à mesa, ele teve uma surpresa e tomou o maior susto quando não viu ninguém. Foi logo exclamando para os ares:
− “Oxente! Mas cadê os minino”?
Sentindo a barra pesar, tentou sair fora também, mas foi impedido pelos funcionários do bar que acionaram a polícia, diante da iminência do cano.
Na Delegacia, nervoso e com o sotaque mais carregado que o de costume, tentava convencer as pessoas de que estava ali injustamente. Ao entrar na sala do Delegado, muito agitado, gesticulando bastante e achando-se cheio de razão, tropeçou no fio do telefone, que veio a se espatifar no chão, complicando mais ainda a situação. A Delegacia ficou completamente sem comunicação, o que provocou a ira do Chefe de plantão, que já estava com muitos problemas, pois a cidade estava congestionada e as ocorrências policiais eram muitas. Diante do impasse, ele desmoronava a cada argumento tentado, pois o principal, que era o dinheiro para o acerto da conta, não possuía. Restou ao Delegado colocá-lo no xadrez naquela noite.
De madrugada o frio foi “arretado”, conforme ele reclamou aos outros colegas de cela. Ao amanhecer foi liberado com duas condições: acertar o que devia ao bar ou “zarpar” da cidade o mais rápido possível. A segunda opção era a mais viável e ele saiu da Delegacia, subiu rapidamente a ladeira até a Praça Tiradentes onde encontrou um nativo, velho conhecido seu. Depois de uma rápida conversa, pediu-lhe que pegasse os seus pertences na República, pois não se encontrava em condições psicológicas de aparecer por lá. Com a bagagem nas costas, foi para o trevo, a fim de descolar uma carona que o levaria de volta para casa e assim cumpriria a ordem imposta pelo delegado.
Em Ouro Preto, várias pessoas sabendo do acontecido, passaram o dia comentando o fato. Pela primeira vez nesses anos todos em que ele frequentou a histórica cidade, o pernambucano passou de comentarista a comentado. Nas repúblicas, nos vários botequins e restaurantes, tornou-se o prato do dia, tamanha era a sua fama nas redondezas.
Diante disso, até ontem, quase com certeza, ele não voltou lá, segundo informações colhidas na cidade. A não ser que estivesse disfarçado, o que ninguém pode duvidar em se tratando de tal criatura. A última vez que um remanescente daquela época o viu, e de longe, mas não se falaram, foi num carnaval em Diamantina. Ele estava sentado num bar, tomando pinga com mel, um maço de cigarros na mão, bicando um copo de cerveja e com uma turma que ria, à vontade, dos casos que contava. Lembrava os velhos tempos da outra cidade histórica. E como dizem os mineiros em situações parecidas com essas:
− “Será o Benedito”?
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista



