O que permanece quando o tempo passa (por Vera Helena Castanho)

Às vezes, uma conversa surge sem previsão e, sem aviso, desloca o tempo. [...]

Às vezes, uma conversa surge sem previsão e, sem aviso, desloca o tempo.

Aconteceu assim.

A conversa fluiu com uma naturalidade quase inesperada.

Falamos de trabalho, sim, mas não só.
Vieram histórias de uma época, de um certo jeito de trabalhar, de pensar, de se relacionar.
Vieram também esporte, família, filhos.

E, em meio a tudo isso, algo curioso foi acontecendo.

Memórias muito antigas começaram a emergir.

Mesmo sem nunca termos nos encontrado antes, compartilhávamos referências.
Pessoas, projetos, contextos, fragmentos de um tempo comum que, de alguma forma, ainda estavam vivos.

Não era apenas memória.
Era memória afetiva.

Aquela que não se organiza como um arquivo,
mas como experiência que permanece inscrita.

Ela não se impõe no cotidiano.
Mas, quando encontra um ponto de contato, emerge com força,
trazendo junto uma sensação de pertencimento quase inexplicável.

Talvez porque nos devolva, ainda que por instantes, uma continuidade interna.

Em um mundo que insiste na velocidade, na substituição constante e na novidade permanente, esses momentos operam quase como pausas estruturantes.

Não nos prendem ao passado.
Mas também não nos deixam à deriva.

Ao contrário: nos lembram de quem fomos, do que construímos e do que, de fato, permanece.

E isso, silenciosamente, organiza.

Porque, no fim, não é só o que vivemos que importa.
É o que, dentro de nós, ainda faz sentido.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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