
Hoje, 1º de outubro, celebra-se o Dia Internacional e Nacional da Pessoa Idosa. Em discursos protocolares, a data costuma vir acompanhada de homenagens à sabedoria e ao legado das gerações mais velhas. Fora da retórica das homenagens, contudo, o Brasil enfrenta um paradoxo econômico e social que beira o insustentável: as regras de aposentadoria exigem que o cidadão trabalhe até mais tarde, a longevidade bate recordes históricos, mas as portas do mercado corporativo se fecham sumariamente antes mesmo dos 60 anos.
Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) escancaram a velocidade dessa transformação. Os brasileiros com 60 anos ou mais já representam cerca de 16,5% da população do país. Em 2030, serão aproximadamente 20%, ultrapassando o contingente de crianças de até 14 anos. Em 2050, praticamente 1 em cada 3 brasileiros terá 60 anos ou mais (mais de 30%), e em 2070 essa fatia atingirá 37,8%.
Ao mesmo tempo, viver mais deixou de ser exceção para virar regra demográfica. Quem completa 60 anos no Brasil hoje tem uma sobrevida média de mais 22,6 anos — ultrapassando os 82 anos de idade. Em poucas décadas, essa média superará com folga os 86 a 88 anos. O brasileiro não está apenas vivendo mais: está chegando aos 60 anos pleno de capacidade cognitiva, saúde física e bagagem profissional.
É exatamente aqui que a engrenagem quebra.
Desde a Reforma da Previdência, os marcos de transição e os requisitos de tempo de contribuição e idade mínima impuseram a realidade de que se aposentar com rendimentos integrais empurra o horizonte de saída para o próximo — e frequentemente além — dos 65 a 67 anos. Na teoria previdenciária, exige-se permanência ativa no sistema formal para sustentar a relação entre contribuintes e beneficiários.
Na prática corporativa, impera o etarismo velado.
Para um profissional com mais de 50 ou 55 anos que perde o emprego, a recolocação em cargos equivalentes é quase uma miragem estatística. Currículos são descartados por algoritmos ou por recrutadores que enxergam a experiência acumulada como “custo alto” ou “resistência à inovação”. Cria-se, assim, um abismo de 5 a 10 anos: o trabalhador é legalmente compelido a continuar na ativa para fechar suas contas previdenciárias, mas o mercado de trabalho o declara obsoleto por antecipação.
As consequências dessa miopia não são individuais, são macroeconômicas:
- Desperdício de capital intelectual e governança: Em um cenário de negócios que demanda maturidade emocional, gestão de risco, capacidade de lidar com crises e visão sistêmica, empresas abrem mão justamente dos profissionais que já navegaram múltiplos ciclos econômicos e tecnológicos.
- Precarização e informalidade compulsória: Sem espaço nas estruturas formais com proteção trabalhista e contribuição ao INSS em dia, profissionais sêniores são empurrados para a informalidade ou para a abertura de MEIs de subsistência, comprometendo seu valor futuro de benefício.
- Insustentabilidade fiscal e previdenciária: Não há modelo atuarial no mundo que feche a conta se a população economicamente ativa encolher enquanto o contingente 60+ cresce, se esse mesmo contingente for impedido de gerar riqueza e recolher impostos.
A transição demográfica não é um risco distante; ela já aconteceu. Envelhecer deixou de ser uma fase residual de repouso para se tornar uma das etapas mais longas da vida adulta produtiva.
Neste 1º de outubro, o melhor reconhecimento que o Brasil pode oferecer às pessoas idosas não é a condescendência do elogio, mas a reforma urgente da cultura corporativa e das políticas públicas de empregabilidade 50+ e 60+. Se o país precisa que seus cidadãos trabalhem até mais tarde para sustentar a economia, o mercado de trabalho precisa aprender, com urgência, a enxergar valor além da data de nascimento no documento de identidade.
Bruce Grant Geoffrey Payne Glazier
Membro Externo e Presidente do Conselho Consultivo da Fex Agro Comercial
Diretor da Valoradar
Trabalhou nos Bancos Lloyds, Singer & Friedlander e Mizuho e nas empresas Abril, Suez Environment, TCP Partners e BTG Global
Membro de Conselho certificado pela Fundação Dom Cabral
Mestrado em Finanças pela London Business School
Bacharelado em Economia e Ciências Políticas pela Northwestern University



