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O medo derrotou Flávio Bolsonaro (por Adriano Oliveira)

A disputa reuniu dois impulsos: o desejo de mudança e o medo das consequências dessa mudança [...]

Desde o início desta eleição, com base nas pesquisas qualitativas da Cenário Inteligência, sustentei que o medo seria o principal sentimento da disputa presidencial. Indicadores tradicionais, como a percepção sobre a economia e a avaliação da administração, seriam insuficientes para explicar o resultado de 2026. Minha interpretação é que o desfecho confirmou a importância desse sentimento: o medo foi decisivo para a vitória de Lula.

A escolha de Flávio Bolsonaro por Jair Bolsonaro foi, a meu ver, uma estratégia acertada. Garantiu a presença do sobrenome da família na urna e ofereceu ao bolsonarismo uma candidatura capaz de reunir seu eleitorado. Inicialmente desacreditado, Flávio cresceu ao longo da campanha e demonstrou competitividade. Seu avanço encontrou terreno no antipetismo e no antilulismo. Sua comunicação foi eficiente ao conversar com o eleitor que vai ao supermercado e teme a inflação, com quem teve o celular roubado e com quem vive numa periferia submetida ao tráfico de drogas.

Ao abordar problemas concretos, Flávio aproximou o discurso da oposição das inseguranças do cotidiano. Reconhecer esses acertos é necessário para compreender a disputa. Flávio não foi um candidato sem estratégia. Conseguiu transformar insatisfações em intenção de voto e apresentar-se como alternativa ao governo. Mas encontrou um obstáculo que sua campanha não conseguiu superar: o medo em relação à família Bolsonaro.

Lula, por sua vez, falou muito do presente e do passado. Recebeu críticas por isso. Onde estavam as propostas para o futuro? O que ofereceria de novo em outro mandato? Essas perguntas tinham fundamento, sobretudo diante do sentimento de esgotamento expresso por uma parcela do eleitorado. Ainda assim, sua campanha também teve um acerto estratégico: defender as conquistas e a rede de proteção social construída ao longo de seus governos. Ao recordar o que havia feito, Lula oferecia uma referência concreta de segurança. Para o eleitor que receava perder direitos e políticas públicas, o passado podia funcionar como garantia de proteção no futuro.

A disputa reuniu, assim, dois impulsos: o desejo de mudança e o medo das consequências dessa mudança. Flávio conseguiu representar o primeiro, mas não reduziu suficientemente o segundo. Ser a alternativa ao governo não bastava. Era preciso convencer o eleitor de que a mudança seria segura. Na minha avaliação, Lula venceu porque conseguiu apresentar a candidatura adversária como uma incerteza maior. Para uma parcela decisiva do eleitorado, preservar conquistas conhecidas tornou-se preferível a assumir os riscos de uma mudança associada à família Bolsonaro.

O medo derrotou Flávio Bolsonaro.

*Artigo originalmente publicado no O Povo

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Método Qualitativo SEP (Sentimento – Estratégia – Previsão) & Estratégia

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