O Amor Oculto (por Vera Helena Castanho)

Existe uma parte da Lua que nunca vemos. [...]

Existe uma parte da Lua que nunca vemos.

Não porque ela não exista,
mas porque está fora do nosso campo de visão.

O chamado “lado oculto” não é escuro.
Ele apenas não se oferece ao olhar.

Ao cruzarem essa região, os astronautas perderam contato com a Terra.
Seres humanos estavam completamente sós.
Sem comunicação.
Sem garantia.
Apenas sustentados por cálculos, gravidade e silêncio.

Foi nesse ponto que algo se revelou.

A imagem que trouxeram depois:
a Terra pequena, quase irrelevante na imensidão cósmica.

Um ponto.

Nós.

E, diante dessa escala, algo muda.

O humano perde a ilusão de centralidade.

Já não há espaço para poder, conquista ou excesso de importância.
Essas referências não se sustentam ali.

O que aparece é outra coisa.

Algo menos visível, mas mais essencial.

Um tipo de amor que não depende de proximidade,
nem de reconhecimento, nem de resposta.

Um amor que não se exibe,
mas sustenta.

Talvez seja isso que o extremo revela:
não aquilo que construímos para o mundo hoje,
mas aquilo que permanece quando o mundo sucumbe.

E aqui estamos.
Na Terra.

Em um tempo atravessado por catástrofes, rupturas e excessos de poder.
Forças que se impõem, sistemas que esmagam e que matam de fome e sede.
Decisões que afastam o humano do humano.

Como se, quanto mais avançamos,
mais soterramos aquilo que nos sustenta.

O amor não desapareceu.

Ele apenas deixou de ser visível.

O amor oculto não é ausência.
É profundidade de difícil alcance.
É dignidade quase invisível.

Esse amor ainda existe.
Está fora do alcance do olhar habitual.

E está justamente ali.

Não como discurso.
Mas como base da existência.

E perceber que, apesar de tudo, ainda é disso que se trata.

É ele que aparece.

Silencioso.

Mas suficiente.

Possível, ainda hoje, mesmo quando tudo parece não ser.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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