Mar Aberto (por Vera Helena Castanho)

Começamos o ano em mar aberto. [...]

Começamos o ano em mar aberto.

Sem mapas confiáveis, sem previsões estáveis, sem a ilusão confortável de águas calmas. O mundo não oferece abrigo, oferece realidade. E ela vem revolta.

Freud chamou de mal-estar da civilização a tensão permanente entre o que desejamos e o que a vida, em sociedade, nos permite. Talvez hoje possamos arriscar uma paródia menos pessimista e mais exigente: o bem-estar da civilização não é dado, é construído. E não como projeto coletivo abstrato, mas como tarefa íntima, diária, singular.

Diante de uma realidade inédita, instável, agressiva e frequentemente confusa, o bem-estar não nasce da negação, nem da agitação barulhenta, nem da fuga, nem da nostalgia de portos seguros que já não existem. Ele nasce da capacidade individual de olhar com lucidez, de sustentar a atenção sobre os fatos, de organizar a própria confusão mental sem terceirizar a responsabilidade para ideologias, líderes ou tecnologias.

Isso exige plasticidade psíquica. Forças internas em constante formação. A disposição de transformar cada impacto da realidade em matéria de elaboração e não em ressentimento, ou medo, ou melancolia. Uma mente que não apenas reage à vida, mas trabalha e constrói a vida.

Paradoxalmente, é dessa construção singular que pode emergir algo coletivo. Uma lucidez que não grita, não simplifica, não infantiliza. Uma amplitude que respeita diferenças sem abrir mão do rigor, de princípios. Uma consciência capaz de navegar em mar aberto e, ainda assim, contribuir para que outros não naufraguem.

É possível.
Mas não é automático.
Depende de nós.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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