
Pintar meio-fio, limpar latrina e cortar grama nunca foram o objetivo final das Forças Armadas. São o meio. O instrumento. O começo de algo maior. O problema é que, no Brasil, isso virou piada nacional, como se a disciplina fosse perda de tempo e não a base de qualquer instituição séria.
A história do meio-fio ajuda a entender. Não se trata de tinta, cal ou vassoura. Trata-se de ensinar jovens que, muitas vezes, não aprenderam em casa, ou onde deveriam ter aprendido, pois disciplina deveríamos ter aprendido em casa, que o espaço coletivo importa, que o detalhe sustenta o todo e que não existe tarefa pequena quando há responsabilidade envolvida.
Grandes exércitos do mundo fazem exatamente isso. Não por tradição vazia, nem por falta do que fazer, mas porque sabem que disciplina não nasce no combate, nasce no cotidiano. Quem aprende a fazer bem o que ninguém quer fazer, faz bem o que todos esperam quando importa de verdade. Por isso, nessas forças, ninguém questiona, e eles não viram chacota nacional. Não porque sejam submissos, mas porque entendem o valor do método.
O erro brasileiro está em confundir disciplina com humilhação. Queremos Forças Armadas fortes, mas desprezamos o processo que forma caráter. Queremos ordem sem rotina, resultado sem esforço, autoridade sem exemplo. Depois nos espantamos com ruas sujas, patrimônio público depredado e regras e leis que não “pegam”.
Compare com o Japão ou a Coreia do Sul. Lá, após grandes jogos de futebol, torcedores limpam o estádio espontaneamente. Não é marketing, não é encenação. É educação. É cultura. É disciplina internalizada desde jovem. Eles não fazem isso porque alguém manda. Fazem porque aprenderam desde cedo que o coletivo vem antes do conforto individual.
A lógica é a mesma do meio-fio. A diferença é que alguns povos entenderam o recado e outros, como o nosso ainda não.
Defesa nacional não começa em armamento ou orçamento. Começa na educação básica do comportamento e é isso que nossas Forças tentam fazer e nossa classe política e intelectual não entende. Um país incapaz de cuidar do que é simples não sustenta o que é complexo. Disciplina não é castigo. É base.
Nações fortes não improvisam valores. Elas os constroem, todos os dias, começando pelo detalhe.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor climático do instituto Climático VBH



