
As quatro crianças brincam, sorriem, fazem manha, sentem ciúme, frequentam escolas, estão com a saúde em dia, viajaram nas férias para a praia, uma já visitou uma dúzia de países, outra espera ser engenheiro mecânico. Não parece, mas todas nasceram em situação precária e passam por uma reviravolta na vida. De rejeitadas, abusadas ou sem perspectiva, agora enxergam o futuro. Em vez de engrossar a massa de menores abandonados do Brasil, ganharam uma casa, uma cama, uma família. E a possibilidade de sonhar.
O mais velho perdeu a mãe para o alcoolismo, a mais nova sofreu tanta agressão do pai que custou a descobrir que ainda é uma menina na primeira infância, com direito a brincar de boneca, imaginar-se princesa e gostar de jabuticaba. A mãe de um nem quis tocá-lo depois do parto.
De repente, apareceram três mulheres na vida dessas quatro crianças, e a história de todos vem sendo reescrita. Em meio a suas carreiras profissionais, Vânia e Maria, solteiras, sentiam falta de filhos. Vânia adotou o afilhado de batismo, o mais velho dos garotos citados acima, talvez o futuro engenheiro mecânico. Maria começou com um menino recém-nascido que, aos quatro anos, lhe pediu uma irmãzinha, justamente a menina abusada pelo pai. Neusa, advogada, casada e sem filho, adotou outro recém-nascido, hoje um pré-adolescente, por coincidência, fisicamente parecido com ela.
Essas famílias se desenvolvem em meio à complementaridade. As crianças precisavam de cuidado e carinho, os adultos careciam compartilhar-se, exercer o afeto, ter herdeiros, tocar a vida com companhia. Uns e outros se preenchem, descobrem-se, curtem-se, moldam-se. Em nossa vasta maioria, os humanos somos assim, solidários. Faz parte de nosso sucesso evolutivo. A receita vem dando certo há milhares de anos e, tanto na fórmula tradicional quanto nas inovações da família que vêm surgindo, essa trilha continuará o caminho da espécie.
Gosto de ver essas três mães e quatro filhos adotivos na estrada de mão dupla que constroem juntos. Admiro-os. Evidentemente há riscos para todos. Não existe maternidade fácil. Filhos, genéticos ou não, estão sujeitos aos mesmos percalços. Nem sempre corremos para o abraço. Momentos de questionamento surgirão, suplantados pela disposição em enfrentá-los, parte inseparável do processo.
Ainda se observa, no Brasil, certa restrição às adoções. Mitos e desinformação circulam entre nós, restringindo as possibilidades de adultos e crianças obterem uma vida alternativa. A observação cabe mesmo nas adoções provisórias, como a de estudantes intercambistas. Quando, há vários anos, estava para receber em minha casa um rapaz belga, alguns amigos me questionaram a lucidez: como eu, em sã consciência, poderia admitir um estranho vivendo junto com meus três filhos, todos mais jovens? Pois esse rapaz se tornou parte de minha família, adotou o Brasil, aqui se casou e me deu dois netos, dos quais me orgulho.
Imagine-se, então, o fosso de dúvida e de incerteza que paira sobre uma adoção para sempre. Seres humanos precisam de uma oportunidade, tanto jovens quanto adultos. Essas quatro crianças e três mulheres que o digam. Criam, a cada dia, um mundo com todo o potencial da vida. Um mundo que pode se estender a muitas outras pessoas. Por exemplo, você, caro leitor.
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
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