
A procissão religiosa mais demorada do mundo, de que se tem notícia, não aconteceu no Vaticano, em Lima ou em Meca. Foi em Diamantina, onde nasceu JK.
As procissões rivalizam-se em número de fiéis, tempo e bizarrices, como a autoflagelação praticada nas celebrações da Ashura no Iraque e no Líbano, ainda que chovam mísseis de Israel. Os xiitas chicoteiam as próprias costas com correntes. Até sangrar.
Elas assemelham-se em piedade e fervor. Mas nenhuma delas imita a de Minas Gerais.
Já participei da Via-Sacra em Roma, encabeçada pelo Papa, ao redor do Coliseu. Uma marcha desapressada de comoção. Afeiçoados a cerimônias longas de Te Deum, os romanos cantavam dolentes, em gregoriano, as dez estrofes do hino litúrgico de Nossa Senhora das Dores, em latim, assim iniciadas:
Stabat Mater dolorosa – Estava a Mãe dolorosa
Juxta Crucem lacrimosa, – Junto à Cruz lacrimosa
Dum pendebat Filius. – Enquanto dela pendia o Filho.
Senti neles a mesma intimidade das capelas mineiras com o cancioneiro sacro quando entoam “A nós descei, Divina Luz”. Ou “A 13 de maio, na Cova da Iria”.
Na capital do Peru, a Procissão do Senhor dos Milagres arrastou em 2025 mais de dois milhões de romeiros, vestidos de roxo, segundo o noticiário internacional. A devoção popular reverencia a imagem do Cristo de Pachacamilla pintada em um muro de adobe, que sobreviveu intacta após o terremoto de 1.650 arrasar a cidade. A multidão inca não se apressa a voltar para casa. Se você já visitou a literatura do romancista Mario Vargas Llosa sabe do que estou falando.
O Círio de Nazaré, comemorado anualmente no segundo domingo de outubro, ocupa, por horas, as telas da TV, com 2,5 milhões de devotos espremendo-se no mormaço de Belém do Pará por 3,6 quilômetros.
Em 1984, Tancredo Neves, candidato da oposição à presidência da república contra o governista Paulo Maluf, participou da festa, clamando pela vitória no colégio eleitoral.
O político de São João del-Rei, no entanto, não segurou na corda, na época feita de fibras de sisal, hoje de malva e juta, produtos típicos da Amazônia. O cabo vegetal de 800 metros puxa a berlinda de Nossa Senhora de Nazaré, similar a um oratório dourado em estilo barroco. Botar a mão na corda dá sorte.
Estive presente, com o governador Hélio Garcia e os jornalistas Ariosto da Silveira, Ângela Carrato, Otaviano Lage e Geraldo Elísio Picapau.
Na Arábia Saudita, segundo a agência Euro News, mais de 1, 5 milhão de muçulmanos estrangeiros cumpriram no ano passado o ritual do Hadjj de peregrinar pelo menos uma vez na vida a Meca e dar sete voltas em torno à Caaba. O empurra-empurra demora uma eternidade.
A procissão de Diamantina não disputa em números de pessoas. Prevalece o significado de um desagravo histórico.
O cortejo diamantinense, realizado em 2023, levou 260 anos para percorrer, arriba, um trajeto de apenas 500 metros calçado de capistranas – lajotas lisas de pedras que arremedam a Via Ápia.
O estandarte da Ordem abriu a passeata penitente dos carmelitas de pluvial monástico, com trilha sonora de clarinetas, bombardinos e clarins estridentes da banda de música.
Anoitecia.
Os fiéis acenderam as velas para alumiar a distância entre a igreja do Rosário e a do Carmo, ambas construídas nos anos 1700. Rogavam perdão. Pelo pecado dos antepassados. Os sinos das capelas repicavam.
Transportaram o santo em pé de igualdade com a Senhora do Carmo que desceu do seu pedestal para resgatar o homenageado: ela, no andor aformoseado de cachos amarelos floridos, que motivaram dúvidas entre os turistas, se eram rosas trepadeiras ou alamandas; ele, na liteira enfeitada de crisântemos, sobre a sede gestatória tejucana carregada nos ombros por homens de túnicas e capuzes de alva cor.
O traslado solene, organizado pelo padre da Paróquia de Santo Antônio da Sé, conduzia a imagem de Santo Elesbão que finalmente conseguiria entrar na igreja do Carmo, seu lugar de direito. A irmandade pagou, fazia quase três séculos, por sua encomenda em Portugal.
Na inauguração em 1754, entronizaram a imagem da padroeira, adornada com duas coroas de prata, vinda da corte. A fina flor da cidade vestia o hábito carmelita. Só de brancos. Queriam outro potentado celeste para companhia da rainha do escapulário.
Classificado como gracioso pela propaganda da Prefeitura, o templo foi edificado às expensas de João Fernandes de Oliveira, o quinto contratador dos diamantes, nababo das Américas, nascido e batizado em Mariana. Um companheiro amoroso e alucinado da bela Chica da Silva, ex-escrava “de tez clara”, filha de mãe negra mina e pai branco, nativa de Milho Verde, segundo a historiadora Júnia Ferreira Furtado, da UFMG, em “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes”, obra publicada pela Companhia das Letras.
Quando a imagem de Santo Elesbão, rei da Etiópia e praticante da espiritualidade carmelita, chegou a Diamantina por volta de 1763, a decepção azedou os festejos de sua exaltação. Um choque. Desconforto geral.
O santo era preto.
Os estatutos da Venerável Ordem Terceira do Carmo proibiam, no capítulo 14, a admissão de pessoas a quem faltasse a pureza de sangue. Em português claro, não podiam ingressar na instituição religiosa os negros, os índios, os judeus, os mouros, os mulatos, essa gente de “sangue infecto”.
Santo Elesbão caiu na malha fina da segregação racial brasileira.
O etíope foi barrado nos altares administrados pela organização secular, embora seu mecenas, o ex-seminarista em Lisboa João Fernandes, exercesse a chefia do priorado.
Mesmo cortejado pelos banqueiros reinóis, o monarca do garimpo sucumbiu à força da letra, décadas antes do Barão de Drummond, mineiro de Nova Era, estabelecer no Rio de Janeiro a regra do jogo do bicho de que “vale o escrito”.
O prestígio do gentil-homem biliardário e o poder de sua insondável burra garimpeira não deram conta de liberar o acesso do rei mago indesejado às glórias do esplendor mineiro.
O impasse baixou nos adros pedregosos do arraial, como o crepúsculo temporão que precede as tempestades nas serras esmerilhadas do Espinhaço. Logo, porém, os senhores escravocratas da mineração acalmaram-se. Deram um jeitinho, de inspiração salomônica, para salvar a face do parente discriminado e humilhado de Davi.
O descendente do rei Salomão e da rainha de Sabá, amigo do imperador romano bizantino Justino I e canonizado pela Igreja Católica como protetor dos navegantes, foi exilado para a igreja do Rosário, encafuada no matagal, apartada da área residencial dos donos de lavras. Hoje, a um quarteirão colonial do centro histórico, em caminhada de cinco minutos, se o tênis for adequado.
Dotada de uma torre só, plantada na frente, como a maioria dos monumentos locais, a igreja foi erguida por negros escravizados em 1728 e mantida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arraial do Tejuco. Atualmente, o baronato negro encontra-se fechado, aguardando restauração e a boa vontade dos cofres públicos.
A requintada arquitetura do Carmo, no estilo Dom João V, diferencia-se por abrigar o campanário, com três sinos, na traseira da sacristia. Dizem que a mando do desembargador João Fernandes de Oliveira, para não perturbar o sono matinal da amada que comprou e alforriou, moradora do sobrado à vista, na rua da Ópera, dois becos acima.
Assisti à missa na igreja do Carmo, frequentada pela confreira dona Júlia Kubitscheck, mãe do presidente Juscelino. Estávamos em março passado, no tríduo de São José, Ilustre filho de Davi, Sustentador do Filho de Deus.
A nave coalhada de hábitos carmelitas reproduz o mosteiro medieval descrito pelo italiano Umberto Eco, em O nome da rosa. As mulheres de mantos brancos e véus pretos. Os homens trajam batinas marrons e capas rodadas.
Ressoa o órgão de 549 tubos, o primeiro produzido no Brasil, fabricado pelo artesão local padre Manoel de Almeida Silva. O maestro, compositor e organista José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805), mulato alforriado oriundo da vizinha Vila do Príncipe, atual Serro, tocou no instrumento suas peças que ainda entusiasmam os musicistas contemporâneos.
O prior da Venerável Ordem Terceira do Carmo, Davi Santana, carrega a cruz processional, inaugurando o desfile. Moço. Culto. Magnífico tetrarca abissínio.
Na nova Ordem democratizada, os irmãos negros, brancos e mestiços recitam calorosamente a ladainha de São José, cada evocação seguida pela súplica “rogai por nós”:
Luz dos Patriarcas,
Esposo da Mãe de Deus,
Chefe da Sagrada Família,
Modelo dos operários,
Guarda das virgens,
Protetor da Ordem do Carmo,
Patrono do Sodalício de Diamantina.
Procuro por Santo Elesbão no retábulo do altar-mor. Não o descubro entre os seis castiçais de prata e os anjinhos desenhados no trono de estilo barroco-rococó. Ele não se faz ver. Na redoma de vidro, sob o sacrário, dormita descoberto o Senhor Morto, talhado em madeira.
Pergunto onde colocaram o rei da antiga Abissínia, defensor dos cristãos na Península Arábica e no Iêmen, regiões conturbadas do Mar Vermelho desde então no conflagrado Oriente Médio. Li que ele reinou no Império Axum, entre os anos de 493 e 531. Bravo guerreiro.
Mais tarde, abdicou em nome do filho, doou toda sua fortuna aos pobres, depositou a coroa real no Santo Sepulcro em Jerusalém e retirou-se para viver como eremita. Morreu no ano de 552. O Martirológio Romano reserva a data de 27 de outubro para a veneração do africano. Invocam-no também como provedor de quem necessita da casa própria.
Contaram-me que o santo preto aceitou vir ao Carmo, de fachada branca e faixas de cor grená, de torre caprichosamente removida para a parte dos fundos de modo não incomodar a patroa de Diamantina.
Permaneceu uns dias por lá. Agradeceu o pedido de desculpas. Até apreciou as mudanças que viu. Mas recolheu sua coroa e retornou ao exílio.
Santo Elesbão deu o pira, de volta ao quilombo de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arraial do Tejuco, na confraria negra de Santa Efigênia, São Benedito e Santo Antônio de Categeró.
Foi a desforra de El-Rei Etíope.
J.D. Vital é membro da Academia Mineira de Letras, autor de “Morte em Cocai”




