De um sujeito ainda não avisado (por Raul Filho)

Queria ser artista, tocador de trompete; professor universitário, diretor de faculdade e um quarto-zagueiro supérfluo [...]

Queria ser artista, tocador de trompete; professor universitário, diretor de faculdade e um quarto-zagueiro supérfluo.

Queria ser surfista de pequenas ondas, ter participado de um grupo de teatro adolescente e escrever textos ruins. Queria ter mais tempo para aquelas pessoas bacanas que a vida põe no nosso caminho e que a gente gostaria de manter por perto para sempre.

Queria torcer pro Fluminense, gostar de gente, dos Stones, do Chico, do Pink e do Floyd e de tantos outros artistas que, sem saber, fizeram minha trilha sonora.

Queria não precisar escolher entre o que fui, o que sou e esse sujeito que ainda mora aqui dentro, cheio de vontades, como se não tivesse recebido o memorando de que os anos estão passando.

Queria continuar acreditando que nunca é muito tempo. Embora desconfie de que algumas coisas tenham prazo de validade e outras simplesmente passem pela nossa vida sem dar seta, sem piscar o farol.

Queria não levar tão a sério as derrotas, nem me acomodar nas vitórias. Ter mais certezas sobre algumas coisas e menos sobre tantas outras. Aprender a conviver com o tempo, esse sujeito que não negocia e segue em frente enquanto a gente ainda tenta entender o que aconteceu.

Queria, sobretudo, não perder a vontade.

A gente vai acumulando histórias, revendo planos e inventando outros sonhos. Até que, de repente, olha no espelho e encontra alguém que conhece muito bem, mas que já não é exatamente quem imaginava ser.

Os sonhos, porém, continuam por ali. Alguns meio amassados, outros fora de moda, uns tantos que já nem combinam com a figura refletida no espelho. Há os que a gente esconde até de si mesmo, talvez por vergonha de ainda querer aquilo que, a esta altura, já deveria ter deixado para trás. E há os que sobrevivem em silêncio, à espera de uma oportunidade ou de um gesto de coragem.

E vai que…

Vai que ainda dá para tocar numa banda, escrever umas páginas decentes, fazer novos amigos, gostar mais das pessoas e menos das certezas que nos afastam delas. Vai que ainda dá para ouvir o Pink Floyd e sentir aquela velha alegria de estar vivo, com a impressão de que, por algumas horas, o mundo voltou a caber dentro da gente.

Vai que a vida ainda guarda algumas surpresas para quem não desistiu inteiramente de procurá-las.

E, se não der para ser tudo, que eu consiga ser um pouco de cada coisa. Um pouco artista, professor e escritor — ainda que fraco. Um sujeito que continua se emocionando com uma música, um poema, uma conversa com amigo ou um gol do Fluminense.

Porque o que me assusta não é o tempo que passou, nem mesmo aquilo que deixei de fazer. É imaginar que um dia eu possa olhar para tudo o que ainda desejo e não sentir mais vontade nenhuma.

Por isso, enquanto houver um sonho fazendo barulho aqui dentro, uma música pedindo para ser ouvida, uma história querendo ser escrita ou um amigo esperando por uma conversa, ainda haverá alguma coisa a fazer.

A vida não me deve os sonhos que não realizei. Mas vai que ainda dá?

E, se alguém me perguntar o que fiz de todos esses sonhos, quero poder responder com a serenidade de quem não precisa provar nada a ninguém.

E que ninguém me venha dizer que eu não tentei.

Raul Filho é Professor, Geógrafo, Doutor em Sociologia da Educação

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