
Escrevo no domingo, 25-jan-2026, assistindo ao Australian Open, na reta final da primeira semana do torneio. Estamos nas oitavas de final. Público imenso, envolvido, abraçando o evento. Protocolos de estresse por altas temperaturas. Um cenário de intensidade máxima.
Jogos brutos. Batidas fortes. Bolas velozes. Jovens talentos despontando. Novos potenciais quebrando marcas e desafiando a era dos grandes clássicos, como Nadal, Federer, Murray e o destemido Djokovic, que ainda leva para a quadra sua insuperável experiência. São jogadores que redefiniram padrões de longevidade, intensidade e exigência mental no tênis contemporâneo.
Cada novo tenista chega com força, tranquilidade e uma autoconfiança que chamam a atenção. Talvez sustentados pela pouca história, por ainda não terem vivido grandes derrotas ou o peso completo das expectativas. Trazem estatísticas novas, ritmos diferentes, outra relação com o tempo, com a pressão e com o risco.
O tênis como esporte sempre me chamou a atenção pelo desenvolvimento mental acelerado que observo nos jogos e nos discursos. O emocional desses jogadores, tão jovens, é impressionante. Há um investimento psíquico que ultrapassa qualquer preparação tradicional: são treinados desde cedo para lidar com ambição, expectativa, pressão e com a ideia de serem número 1 do mundo. Nada corriqueiro.
Observa-se também algo sutil: muitos entram em quadra já incorporando, internamente, a convicção de que não irão perder, especialmente contra determinados adversários. Algo muito individual e peculiar, perceptível nos gestos, no tempo de resposta, na postura e na ocupação simbólica da quadra. Uma construção psíquica que se revela como um dos aspectos mais determinantes do estar inteiramente presente em jogo.
A biomecânica passou a integrar as equipes. Ajustes finos, como os que transformaram o saque da Sabalenka, mostram o quanto a técnica se tornou rota estratégica. Micro otimizações, precisão, controle de detalhes.
Entre os campeões, outro ponto revelador tem sido as trocas de técnicos. O mundo especula, cria narrativas, busca explicações. E, nas novas parcerias, alguns jogadores retornam diferentes: mais livres, mais ousados, mais criativos em suas jogadas. Não é apenas técnica. É enquadre. É narrativa. É clima psíquico.
Nesta semana, vimos o inédito: ritmo, inteligência e solidez superando reputação. Em 1h40, um jogador experiente foi eliminado em três sets. Tien e Medvedev. Heróis emergem e surpreendem.
Todo esse cenário oferece, de forma lúdica e profundamente real, uma maneira potente de enxergar o mundo organizacional.
As organizações de hoje também operam sob batidas fortes: alta velocidade, pouca margem para erro, pressão constante e necessidade de respostas imediatas. Jovens lideranças são exigidas emocionalmente antes mesmo da maturidade que o processo natural da vida constrói. A técnica, os KPIs, os processos e as metodologias se refinam. E, nas relações humanas, a pergunta permanece: o que sustenta quando o jogo vira emocional?
No tênis de hoje, como nas organizações, não basta bater forte. É preciso sustentar impacto, presença, técnica, emocional e narrativa, ponto após ponto, negócio após negócio, sem o luxo do tempo que antes permitia acomodação.
Como no tênis e também no ciclismo, na Fórmula 1, no esqui e em tantos esportes de alta exigência, o jogo real acontece onde técnica e corpo já não bastam. É a saúde emocional e a potência psíquica que sustentam presença, recuperação, tomada de decisão e continuidade quando a pressão deixa de ser evento e passa a ser o próprio ritmo da vida.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



