
Uma coisa que sempre tive a maior simpatia e apreço era pelas bancas de jornais e revistas das cidades. Passava pelas ruas e ficava reparando, admirando, enfim aquilo era um grande mundo para o meu universo. Também parecia meio inalcançável para mim, devido aos custos dos materiais ali expostos. As bancas de jornais sempre foram uma grande vitrine para quem gosta de ler, apreciar…, enfim curtir aquele visual maravilhoso, cultural…
Vindo do interior, recentemente, eu passava por esses estabelecimentos e ficava deslumbrado e com muito entusiasmo. Até que um belo dia, um colega lá do colégio Estadual me disse:
– “Meu irmão que estuda no turno da noite tem uma banca de revistas perto de onde você está morando e precisa de alguém prá ficar lá tomando conta, enquanto ele vai às distribuidoras pegar as revistas, jornais…, você topa”?
Aquilo prá mim foi um grande presente e, ao meu querer, topei na hora. Não havia celular na época para fechar a questão e fiquei cheio de expectativas pela proposta feita pelo rapaz.
No outro dia, depois da aula, eu estava aflito para chegar à banca e combinar as coisas com o irmão do meu colega. Naquele dia, nem fui almoçar e fiquei por lá mesmo pois ele teria que ir a uma distribuidora e disse que demoraria um pouco mais pois tinha muito material prá trazer.
Eu, um menino de menos de quinze anos de idade, comecei a tomar conta daquele paraíso, ainda que só por algumas horas diariamente. Esse primeiro dia não teve maiores problemas e na questão dos preços tirei de letra, mesmo porque muitos deles estavam impressos nas publicações. Diferente de quem vai trabalhar num armazém ou numa loja de secos e molhados que tem que saber o preço de tudo, de cor e salteado, como lá dizem. Não vendi nada nesse primeiro dia, só um jornal especializado em anúncios de empregos, lembro muito bem disso.
Mais tarde, o dono da banca apareceu com as revistas que ele retirou na distribuidora enriquecendo mais ainda o estoque do estabelecimento e aguçando mais ainda a minha curiosidade para o segundo dia de trabalho.
Fui para casa, mas com o sentido de, no outro dia, voltar a ocupar novamente o comando do estabelecimento. Ocorre que os meus colegas do colégio ficaram aflitos para saber sobre as revistas masculinas que poderiam ser vistas.
Curiosamente, na hora do meu expediente apareceu uma “penca” de colegas para ver as revistas, inclusive atrapalhando um pouco a minha “freguesia“. Saíram frustrados pois as revistas: Playboy, Ele Ela, Playmate…, objeto da maior vontade deles, estavam envelopadas dentro de um plástico e nada poderia ser desvendado, a frustração foi geral! Ofereci alguns jornais para se distraírem, alguns se deram por satisfeitos com os cadernos esportivos, menos mal, mas notei que alguns não gostaram do passeio.
Nesse mesmo dia apareceu na banca um rapaz pedindo para entregar ao dono, um pacote de revistas de um tal de “Carlos Zéfiro“, inclusive pediu sigilo absoluto na questão. Fiquei muito curioso, abri com muito cuidado e descobri que se tratava das famosas revistinhas de sacanagem que, na época, faziam o maior sucesso, sobretudo com os “onanistas” de plantão desse país. Peguei uma, despistadamente, e no outro dia levei ao colégio onde foi a grande atração do dia. Não tive mais sossego, e diariamente apareciam outros fregueses da sacanagem e acabei ficando muito conhecido, lá no colégio, de uma forma quase pejorativa, inclusive entre as meninas mas, com o tempo as coisas voltaram ao normal.
O meu “emprego” na banca de jornal continuava de vento em popa. Aí apareceu o primeiro número do jornal “O Pasquim“, e eu estava lá testemunhando tal fato. A procura foi incessante pela publicação que se tornou uma grande coqueluche. Eu, muito curioso, mais que depressa me interessei por aquilo e acabei me tornando um aficionado pelo jornal, uma coisa muito proveitosa prá mim até hoje, pois tenho a coleção completa da genial publicação.
Tudo ia muito bem naquele ambiente maravilhoso, até que um dia apareceram uns brutamontes procurando por jornais e revistas que estavam proibidos pelo sistema, inclusive o nosso Pasquim e outros jornais da imprensa alternativa que já estava despontando maravilhosamente. Fizeram uma limpa geral na banca, fiquei muito assustado e com uma reação muito inocente:
− “Ô moço, espera aí que o dono da banca já está chegando”!
Fizeram mais algumas ameaças e eu, finalmente, tive a consciência da situação grave em que se encontrava a nossa banca, inclusive o nosso país. Fizeram mais algumas provocações e eu me lembrei de conversas que havia presenciado com alunos mais antigos do colégio, onde eles sempre alertavam, sobre prisões, torturas, sequestros… e outras coisas mais, que carrego até os dias atuais na minha consciência.
Apesar desse acontecimento muito grave, continuei a curtir aquele espaço com muito entusiasmo e o hábito da leitura, cada vez me atraía mais pois aquele lugar mágico era um habitat natural para quem aprecia as coisas do conhecimento.
Com a chegada do final do ano letivo, tive que optar pelas férias pois, naquela época, elas duravam três meses e prá quem era do interior o mais econômico seria ir prá casa nesse período e foi o que fiz. Além do mais o meu amigo, dono da banca, estava prestes a fazer o vestibular e o curso que ele estava pleiteando era de dedicação integral, o que acabou acontecendo.
A experiência foi maravilhosa e inesquecível, mas eu estava esquecendo, dentre outras coisas, de uma muito formidável: em frente a banca de jornal havia uma loja de discos que tocava o dia inteiro músicas de qualidades maravilhosas: MPB, Sambas, Rock progressivo…, quer dizer, por quase um ano inteiro eu fiquei muito perto do céu!
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista



