
Os fatos recentes no Oriente Médio, sobretudo a escalada entre Estados Unidos e Irã e as tensões no Estreito de Ormuz, recolocam no centro do debate uma realidade evidente, as guerras do século XXI raramente começam no campo de batalha. Elas começam antes, em silêncio, nas redes digitais, nas cadeias energéticas, nas pressões financeiras e na disputa por infraestrutura crítica.
Dessa forma ganha força a ideia da “guerra invisível”. Antes de qualquer ação militar aberta, prepara-se o ambiente estratégico com guerra cibernética, pressão econômica, isolamento diplomático, controle logístico e ataques contra infraestruturas sensíveis. O objetivo inicial não é conquistar território, mas imobilizar o adversário e criar uma zona de liberação operacional.
O ataque ao Irã pareceu seguir essa lógica. Antes da escalada militar, observou-se uma sequência de sanções, pressões econômicas, atividade de inteligência e ações voltadas a enfraquecer estruturas estratégicas. Primeiro restringe-se a liberdade de ação do adversário, depois se impõe o poder militar.
Mas há um episódio recente que levanta uma hipótese provocadora. Pouco antes da escalada no Oriente Médio, o mundo assistiu a uma operação rápida que derrubou o regime autoritário na Venezuela. O que parecia apenas uma mudança política regional pode, sob outra lente, ter sido um ensaio operacional de imobilização estratégica antes de uma ação mais ampla em outro teatro.
A sequência chama atenção, pressão financeira e diplomática, isolamento internacional, deterioração econômica e enfraquecimento institucional. Depois, operações coordenadas neutralizaram o núcleo de poder do ditador, praticamente imobilizando o país.
Há ainda a dimensão energética. Ormuz concentra parcela relevante do fluxo mundial de petróleo, e qualquer instabilidade ali repercute nos preços globais. Nesse cenário, garantir fontes alternativas de abastecimento tornou-se parte essencial de qualquer cálculo estratégico.
É nesse ponto que a Venezuela volta ao centro do tabuleiro. Com uma das maiores reservas do planeta, passa a ter papel relevante em qualquer rearranjo energético global. A reorganização de sua produção e exportação pode funcionar como válvula de compensação em momentos de crise no Golfo.
Alguns analistas, entre os quais me incluo, enxergam nessa dinâmica três objetivos possíveis, testar mecanismos de imobilização de um Estado, garantir estabilidade no mercado de petróleo, e pressionar economias altamente dependentes da importação de petróleo, especialmente a China.
Se essa leitura estiver correta, não estamos vendo fatos isolados, mas peças de um jogo estratégico maior. Hoje, o campo de batalha inclui cabos submarinos, satélites, sistemas financeiros, redes digitais e cadeias globais de suprimento.
A lição é inquietante, quando o mundo percebe que a guerra começou, muitas vezes ela já está perto de ser decidida.
E o Brasil, o que está fazendo?
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor climático do instituto Climático VBH



