
Muito se discute sobre destino, sonhos que se tornaram realidade ou até mesmo sobre as pedras que rolam e um dia se encontram, enfim… Tudo isso e outras coisas mais fazem parte dos mistérios que a vida nos proporciona. Sonhar e ter fé é preciso para que a travessia se faça de uma forma mais suave e digna .
Foi o que se deu com um grupo de semiadolescentes, numa pequena cidade do vale do Jequitinhonha, quando a força da televisão se tornava uma realidade para o mundo inteiro. Acontece que, naquela época, só os lugares maiores tinham o privilégio do som e da imagem. Os cidadãos mais interessados deslocavam-se alguns- muitos- quilômetros até os locais onde o sinal da TV chegava a fim de assistirem a jogos de futebol, festivais de música, programas de auditório…
Dependendo das atrações do dia, saíam até caravanas. Quando voltavam, os grupinhos se formavam pelas ruas, praças, portas de boteco… Aqueles que foram ao passeio eram alvo de todas as atenções, para que repassassem as novidades. Esse tipo de diversão tornou-se mania e, a cada final de semana, novos grupos se deslocavam, pois ninguém queria ficar por fora da boa nova.
Paralelamente, a vida na cidade continuava e, felizmente, nem todos aderiram a “coqueluche” do momento. As conversas fiadas nos bares, armazéns e lojas continuavam com o bom sabor de sempre. Uma das atrações desses lugares, a que a televisão veio fazer uma feroz concorrência, eram os caixeiros viajantes, vendedores, representantes comerciais. Sempre ao final da tarde, depois de fazerem a praça, eles paravam em algum estabelecimento comercial ou na porta da pensão para contarem casos e serem assuntados sobre os fatos novos que traziam lá de fora.
Foi numa tardinha dessas que um viajante, com muita estrada e bagagem, percebeu que um grupo de amigos comentavam, cheios de entusiasmo, na porta de uma loja de tecidos e armarinhos, sobre os programas a que assistiram na televisão no último final de semana. O vendedor entrou no assunto e foi logo destilando conhecimento: – Ô pessoal! Eu não sei por que vocês viajam para tão longe para assistir televisão. – Uai moço, é porque aqui não pega, retrucou um dos nativos muito interessado no caso.
O viajante notou a curiosidade dos meninos e, apontando para a pedra da Conceição, demonstrou saber de detalhes técnicos: – Vocês aqui com uma pedra imensa desta só não captam o som e a imagem da TV porque não querem. As ondas televisivas propagam é para cima. É por issoque as torres, em todas as cidades, ficam na parte mais alta. Aqui vocês já têm uma natural; em outros lugares precisa ser construída .
Os componentes do grupo se entreolhavam curiosos e com muita expectativa. Um deles, o mais interessado de todos, indagou ao viajante à exaustão. Diante do questionamento, o vendedor- viajante deitou falação e, com muita propriedade, mostrou para os rapazes ser um bamba no assunto. Ele tornou-se a principal atração do dia e quiçá da semana para aqueles jovens; e dava maiores detalhes: – É muito simples pessoal. Vocês procuram um aparelho de TV; na cidade deve ter alguém que já adquiriu. Também precisarão de uma antena e uma bateria de carro, pois, lá no alto da pedra, não tem energia. Sigam a trilha que leva à parte mais alta.
E prosseguindo na candonga: – Inclusive, lá em cima, as possibilidades de pegar mais canais que nestas cidades onde vocês costumam assistir à tevê são maiores, por um fato muito simples: a altitude da pedra da Conceição favorece consideravelmente e quanto mais alto é o lugar, mais fácil fica captar os sons e as imagens.
Diante da arenga do vendedor- viajante os olhos dos garotos brilhavam mais que a pedra depois que chovia e o sol refletia nela. O mais interessado da turma chegou a gaguejar diante do exposto, dando expediente aos amigos:
– “Ô véi, ô véi ,ô véi, eu sei onde tem o aparelho, inclusive com a antena . É na casa de Pacifim. Nós já colocamos a bichinha pra funcionar, mas não pegou nada. Só chiado”.
– “É claro! Vejam bem pessoal, o menino tem toda a razão, falou o viajante. Aqui embaixo o sinal não chega sem uma retransmissão lá de cima”.
O entusiasmo era crescente, e rapidinho a turma organizou o que ficou conhecido na cidade como: “expedição à pedra da Conceição”. Tudo foi devidamente traçado pelos oito componentes. A parte técnica constava da bateria de carro, o aparelho de TV, a antena, desmontada dentro de um saco de linhagem, e duas lanternas. A matula, que ia num outro recipiente era pão sovado, pó de café, açúcar, manteiga, uma botija cheia de água gelada e duas pencas de banana caturra. Traziam ainda um grande saco de papel cheio de laranjas, que, a certa altura, veio a pocar. As danadas rolaram morro abaixo num açoite lascado, diante dos olhares incrédulos da turma.
Esse pequeno incidente não os abalou quando escalavam a grande rampa, cantando, contando casos, piadas e brincando de: “o que é o que é ”. Cheios de esperanças chegaram ao ponto mais alto já de noitinha. Apesar de fazer muito calor na região, foram prevenidos com cobertores para rebuçarem e esteiras de junco e travesseiros de paina, pois pernoitariam no local; afinal, a programação noturna da televisão era mais interessante. Montado o acampamento, foram ao que interessa. A curiosidade e a pressa andavam juntas.
Ao conectarem o cabo da TV à bateria e instalada a antena, rapidamente ligaram o aparelho. No canal que estava sintonizado, nenhuma imagem e nada de som. Com calma giravam o seletor e, mais uma vez, nada. Cada um dava uma sugestão, e a antena era posicionada em vária direções. De vez em quando, o chiado aumentava ou diminuía, causando um pequeno susto na turma. Os olhares de espanto e perplexidade tomavam conta, mas eles não se davam por vencidos. A cada momento surgia uma idéia diferente: vamos mudar o aparelho de lugar, ali é mais alto, acolá dá mais visibilidade; enfim, quase tudo foi tentado.
Resignados, depois de todas as tentativas possíveis, e com o aparelho ligado na esperança de aparecer alguma novidade, foram merendar: café coado, pão sovado com manteiga e banana caturra, que era para segurar o vão até a manhã seguinte. Antes de pegarem no sono, um dos integrantes do grupo começava um espetáculo. Como se tivesse passando na tela da TV, o rapazinho imitava alguns personagens de programas que ele assimilara nas excursões que fizera às cidades vizinhas. Isso para espanto, admiração e aplausos dos colegas: “Eu sou o Topogigio mia mamma”. Com a voz bem fanhosa… ”Terezinha!…uh! uh! Vocês querem bacalhau?”… ”Ocridé!… Fala pra mãe”…. ”Os nossos comerciais por favor.”…”Que bola bola do mineirinho de ouro para o garoto do parque, ponta de bota…” “É uma brasa mora!”… ”Uma pedra não faz falta, olê seus cavalheiros”… (fazendo a voz do Guarabyra).
Entre uma imitação e outra, não passaram batidos nem os comerciais da época: “Montila, montila, mooooontila”… ”Chegou o batalhão do apetite, arroz paranaíba…” “Ingleza Levy, a sua casa”…”Ducal, Ducal, Ducal…” “Bozzano, bozzano…” .
O pessoal se divertia e, apesar do semifracasso da expedição, inclusive com o esgotamento da bateria, foram dormir na certeza de que ali estava presente alguém com dons artísticos bem aguçados. Ele fez, durante alguns momentos, uma apresentação ao vivo e em cores, aproveitando o clarão da lua com uma vantagem sobre a TV, que, na época, era em preto e branco e em vídeo tape.
No outro dia, os meninos bateram em retirada, mas combinaram que, por alguns dias, sustentariam o sucesso do passeio, aguardando ansiosamente que o viajante voltasse para um pequeno acerto de contas. Assim que chegaram à cidade, foram cercados por curiosos. Esses queriam detalhes dos programas, da qualidade da imagem e do som; enfim…. Diante da iminente vitória da rapaziada, já se organizavam pela cidade outras caravanas rumo à pedra da Conceição.
Sentindo a responsabilidade, eles decidiram, aos poucos, desmentirem a versão, pois o verdadeiro inimigo naquele momento era aquele “xibungo véio”. Essa era a maneira pela qual começaram a se referir ao viajante que deveria chegar à cidade naqueles dias.
Um belo dia, o fusquinha azul foi visto fazendo a praça e, dentro dele, a peça que os meninos tanto queriam. Eles montaram guarda na porta da última venda a ser visitada naquela tarde. O caixeiro desceu do carro e foi rodeado pela turma querendo satisfações pelo fracasso da expedição incentivada por ele. O viajante, com muita vivência, percebeu que eles não estavam para brincadeira. Depois de ouvir um quase desaforo, mandou argumento, fazendo várias perguntas aos garotos: – De quantas polegadas e qual a marca do aparelho de tevê que vocês levaram? Colocaram Bombril na antena? A antena era do tipo espinha de peixe?
Os meninos ficaram atônitos com os questionamentos do forasteiro, que arrematou com esta:
– “Vocês têm que procurar na cidade um aparelho cuja marca é Colorado RQ de vinte polegadas. RQ quer dizer reserva de qualidade. Aí então o som e imagem sairão tinindo”.
Diante da firmeza e da lábia do caixeiro viajante, a turma sossegou um pouco, entreolhando-se com dúvidas. Não se tem registro na cidade de que houve uma segunda expedição, a não ser se foi muito na moita.
O mais inusitado em toda esta história foram as laranjas rolando morro abaixo. Isso porque, tempos depois, como as pedras que rolam e se encontram em algum lugar, elas germinaram e floresceram no sopé da pedra da Conceição, tornando-se um grande laranjal. Curiosamente, sem que houvesse a intenção, Laranjeira também é o nome artístico adotado pelo menino que participou da expedição e fez o espetáculo no alto da pedra. Atualmente, é como cantor, apresentador e humorista, um nome nacional da televisão. Dono de inúmeros personagens. Será coisa do destino? Sonho que virou realidade? Ou serão os mistérios dessa coisa chamada vida?
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista



