
Outro dia fui à Serra Piedosa para o batismo da filha de um amigo. Na volta, resolvi passar por Lavena, a terra de meus ancestrais, no bar ao lado da Igreja em que meu avô está enterrado.
Fui direto ao boteco do Primo Bento. Orgulhoso, disse-me que toma 11 cervejas por dia, as de garrafa, de 750 ml.
Eram colonos. Vieram com os desbravadores Bandeirantes Paulistas que vieram atrás do nosso ouro, e assim o levaram. Lavradores, ou hoje, agricultores, das espécies mais finas da culinária Mineira, do leitão, ao queijo, hoje premiado nas mesas da Franca.
No fim da tarde, com o céu límpido, o sol caia no poente. Como sempre ocorre. Olhei para a rua, com a sua Igreja Barroca reluzente em seus doirados e suas pedras pé de moleque, e lá vi, ao longe, alguém que cambaleava, dormindo sobre um cavalo, troncho que estava, de onde quase caia.
Disse:
– “Olha! Vai cair”!
– “Cai não”, disse o primo Bento. “É o primo Neca, passa por aqui todo domingo a esta hora.”
Cambaleando, lá veio o primo Neca. Pescoço prá Leste, pescoço pro Norte, pescoço
pro Oeste, voltando pro Sul. Passou na frente do boteco e adentrou na descida mais íngreme que se possa imaginar de Lavena.
– “Agora cai”, disse.
– “Cai não”, disse novamente o primo.
– “Mas e o cavalo, vai prá onde?”, perguntei.
– “Para na frente da casa dele, é bem ali no meio. Aí então ele acorda e desce”, Bento falou.
O primogênito que aqui chegou era Pico de Alcântara Tinto, tinto de vinho que era, e Alcântara, por concessão da Casa de Bragança, que emprestavam o sobrenome aos que vinham lavrar, para os mineradores que vinham ganhar. Nisso, Pico ganhou as 4 montanhas da Serra Piedosa, de quebra, cheias de minério de ferro, à época sem o mínimo valor.
A primeira montanha, Pico teve que dar aos Padres, para que pudesse ganhar a extrema-unção, Cristão Novo de origem Judaica que era, que nem rezava fazia. As outras, foram exploradas pela família, e vendidas à Savana Co., empresa de nossos fraternos da Norte América, que por aqui estavam, sempre talentosos.
O sol se punha, e primo Bento se levantou, em um ato de elegância, lindo que foi, e passando a mão do norte ao sul sobre o poente, disse:
– “Olha, isso aqui, tudo era de Pico”!
“Tudo era de Pico”, foi a máxima do dia, que ficou!
Do devaneio, do elo perdido.
Ricardo Guedes é Autor



