
Uma sala de audiência é o único lugar do mundo onde tudo pode acontecer. Tem figurino (as togas), tem plateia (os curiosos do fundão), e tem um roteiro onde todo mundo acha que sabe o final, até que alguém decide improvisar.
Estávamos ali para julgar um caso clássico de “quem matou?”. De um lado, o promotor, com sangue nos olhos e um dedo em riste que quase furava o teto. Do outro, o advogado de defesa, suando frio e tentando convencer a todos de que seu cliente — um sujeito com cara de quem se assusta até com o próprio reflexo — estava em casa jogando dominó na hora do crime.
O réu jurava de pé junto que era inocente. A acusação, por sua vez, desmontava os álibis do homem mais rápido do que criança desmonta brinquedo no Natal. No final, não teve jeito: os jurados se reuniram e o veredito veio pesado como um tijolo. Culpado.
O juiz, ajeitando os óculos com aquela imponência de quem tem o poder de mandar alguém ver o sol nascer quadrado, leu a sentença. Mas, mantendo a liturgia do cargo, resolveu dar a última chance para a defesa se manifestar:
— A defesa tem algo a dizer antes do encerramento dos trabalhos?
Foi aí que o advogado incorporou o espírito de um diretor de cinema de Hollywood. Ele respirou fundo, ajeitou o paletó, olhou dramaticamente para o relógio e soltou a bomba com a voz mais imponente que conseguiu simular:
— Excelência… o verdadeiro assassino vai entrar por aquela porta em exatamente… cinco segundos! O Grande Clímax (Ou Quase Isso)
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Dava para ouvir o barulho do ar-condicionado velho engasgando.
O juiz esticou o pescoço.
Os jurados viraram a cabeça em sincronia, como se estivessem assistindo a uma partida de tênis em câmera lenta.
O promotor arregalou os olhos, já preparando uma objeção teatral.
A plateia prendeu a respiração. Todos os olhos do tribunal se cravaram na maçaneta da grande porta de madeira. Passaram-se cinco, dez, quinze segundos. Ninguém entrou. Nem o assassino, nem o vento.
O advogado deu um sorriso amarelo, achando que tinha operado um milagre psicológico baseado no puro blefe. Mas ele esqueceu de combinar a jogada com o único homem que realmente importava no banco dos réus.
Enquanto o tribunal inteiro quase quebrou o pescoço de tanto olhar para trás, o réu continuou lá, estático. Não moveu um músculo da cervical. Olhava fixamente para a mesa, com a tranquilidade de quem sabe exatamente onde o verdadeiro assassino estava sentado: na cadeira dele.
O juiz, que de bobo só tinha a cara, olhou para a porta vazia, depois para o advogado audacioso e, finalmente, para o réu de pescoço imóvel. Bateu o martelo com força, fazendo o eco acordar o estagiário que cochilava no fundo da sala, e decretou:
— Doutor, o seu truque foi brilhante. Mas o seu cliente estragou a mágica. Todo mundo nesta sala olhou para a porta movido pela dúvida… menos o réu. E ele não olhou por um motivo muito simples: ele tem certeza absoluta de que o assassino não vai entrar por ali… porque o assassino já está bem aqui.
E foi assim que a defesa tentou criar um golpe de mestre digno de cinema, mas acabou entregando o golpe de misericórdia no próprio cliente. No teatro do tribunal, o réu esqueceu de decorar a fala mais importante: a de olhar para trás.
Aldeir Ferraz é Político e Escrito



