
Mais uma vez, as urnas nos oferecem uma reflexão amarga sobre o futuro do Brasil. Parece que aperfeiçoamos a arte de distribuir o peixe, mas continuamos incapazes de ensinar a população a pescar.
Há mais de vinte anos, com breves interrupções, convivemos com um modelo político que transforma políticas sociais, necessárias e legítimas, em instrumentos de manutenção do poder. Um sistema que administra a pobreza, mas demonstra pouca eficiência em superá-la.
O problema não está em quem recebe auxílio. Está em quem governa sem oferecer condições para que essas pessoas conquistem independência econômica, educação de qualidade, emprego e dignidade.
Uma nação desenvolvida deveria comemorar a redução do número de pessoas dependentes do Estado, e não transformar o crescimento dessa dependência em propaganda.
Nas vésperas das eleições, assistimos a uma curiosa multiplicação de demonstrações de generosidade governamental. Benefícios, anúncios, liberações de recursos e promessas surgem com impressionante pontualidade eleitoral.
Certamente, tudo por amor ao povo. Afinal, a diplomacia recomenda cautela antes de interpretar tamanha coincidência como estratégia de conquista de votos.
Mas existe uma diferença fundamental entre política social e populismo, a primeira emancipa; o segundo pode perpetuar a dependência.
Enquanto isso, milhões de brasileiros trabalham, empreendem, produzem, assumem riscos e sustentam, por meio dos impostos, uma máquina pública que nem sempre devolve serviços compatíveis com aquilo que arrecada.
O resultado está diante de nós, produtividade insuficiente, educação deficiente, infraestrutura precária, insegurança e um país que insiste em desperdiçar seu extraordinário potencial.
Eis o paradoxo brasileiro, somos uma nação com recursos naturais abundantes, capacidade produtiva e uma população trabalhadora, mas permanecemos presos a estruturas políticas que frequentemente privilegiam a sobrevivência eleitoral em detrimento do desenvolvimento nacional.
Não se trata de condenar o voto de quem precisa de assistência. Trata-se de questionar um modelo que, depois de tantos anos, ainda não conseguiu transformar essa assistência em autonomia.
O verdadeiro indicador de sucesso de uma política social deveria ser quantas famílias conseguiram deixar de depender dela.
O Brasil precisa substituir a política da dependência pela política da oportunidade, com educação, qualificação, produtividade e liberdade econômica.
Porque, diplomaticamente falando, talvez o maior êxito eleitoral de determinados governos seja justamente seu maior fracasso administrativo.
Depois de tantos anos distribuindo peixes, ainda não conseguimos formar uma nação de pescadores.
E fica a provocação, será que ensinar a pescar interessa a quem descobriu que distribuir o peixe rende tantos votos?
Afinal, cidadãos independentes escolhem seus governantes. Cidadãos mantidos na dependência podem acabar reféns deles.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor em Defesa e Clima



