A Natureza da Paz (por Vera Helena Castanho)

A paz não é ausência de conflito, mas a capacidade humana de dar forma às forças que nos atravessam. [...]

A paz não é ausência de conflito, mas a capacidade humana de dar forma às forças que nos atravessam.
Entre o instinto que preserva e o afeto que humaniza, talvez seja aí que a paz se construa.

Na natureza selvagem, a paz não é gentil.
Ela não pede licença, não promete conforto e não se explica.
Ela simplesmente funciona.

Uma floresta não é pacífica porque é silenciosa.
Ela é pacífica porque cada força conhece seus limites, ainda que os teste o tempo todo. Há disputa por luz, por território, por sobrevivência. Ainda assim, o sistema se mantém vivo. Não por bondade, mas por equilíbrio.

Talvez o erro humano tenha sido imaginar a paz como um estado moral e não como um arranjo dinâmico entre forças em tensão.

Nietzsche disse que “aquilo que é feito por amor está sempre além do bem e do mal”.
O amor, quando não é idealizado, age como força vital criadora: não se encaixa em categorias morais, sustenta tensões, cria e transforma.
Essa força vital no humano não se expressa apenas como impulso. Ela se entrelaça ao afeto, à linguagem e à responsabilidade. Diferentemente da natureza selvagem, onde o equilíbrio se impõe. Entre nós o amor exige elaboração, escolha e cuidado.
O instinto preserva a vida. O afeto a humaniza.

Enquanto isso, na experiência humana contemporânea, assistimos a um paradoxo inquietante: quanto mais falamos em paz, mais alimentamos a agressividade. Não a agressividade explícita, mas a que se infiltra silenciosamente na ansiedade crônica, no cansaço moral, na irritação constante que não encontra nome.

A consciência coletiva está exausta.
Não por excesso de violência visível, mas por violência contida, mal metabolizada, sem linguagem e sem destino.

No mundo interno do sujeito, conviver com a agressividade não é legitimá-la como destino dos tempos nem aceitá-la como incontrolável.
É reconhecer que, na experiência individual, não há outro caminho senão dar forma às forças que nos atravessam.
O que não encontra destino retorna deformado. O que se tenta conter sem linguagem retorna como desgaste psíquico e violência sem rosto.

Na natureza selvagem, nada é reprimido por muito tempo. O excesso encontra vazão. O desequilíbrio cobra seu preço rapidamente. Já nós aprendemos a sofisticar o adiamento e chamamos isso de civilização.

A paz, talvez, não seja o contrário da guerra.
Seja o contrário da negação.

Não a paz dos discursos,
mas a paz dos sistemas vivos:
imperfeita, instável, exigente
e, justamente por isso, sustentável.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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