
A notícia que correu esta semana foi que Ratinho Júnior havia desistido da sua candidatura para presidência e agora Kassab dá seus pulinhos para escolher um novo nome para terceira via. Com toda a insegurança perante o candidato do Centrão, este provavelmente não terá tantas cartas no baralho para ser no mínimo competitivo perante os dois outros principais candidatos: Lula e Flávio Bolsonaro. Porém, esta incógnita carrega com ela uma pauta do debate público que ainda está em chamas: a constância da polarização. Muitos opinam que mais uma vez serão dois lados e que o eleitor decidirá pelo menos pior. Certo, tudo bem. Mas, vamos perder um pouco a inocência?
A dinâmica das eleições brasileiras após o período da redemocratização sempre foi movimentada por dois lados mais dominantes. Inicilamente, a partir de 1994, a polarização era PSDB versus PT. A partir de 2018 quem passou a ocupar o outro lado da moeda contra o PT foi Jair Bolsonaro. Isso significa que o país tem pelo menos competição e são dois lados que vão lutar para se aproximar mais dos que os eleitores almejam.
Nas eleições que estão por vir, mais uma vez, serão dois lados. Um ocupado por um líder consolidado na “centro-esquerda” e outro que carrega o nome de uma outra liderança da “direita”. Compreendemos, através das pesquisas que fazemos semanalmente na Cenário Inteligência, que o sentimento predominante do eleitor é o desejo por uma terceira via, uma nova forma de pensar a política, mas, infelizmente, esse ano ela demorou a se consolidar. Todavia, não se deve levar em consideração que perderemos o debate público por conta disso. Ele existe. Mas este ano será moldado por narrativas já consolidadas, visto que as elites políticas ainda se moldam perante duas figuras: Lula e Jair Bolsonaro.
Ademais, de acordo com nossas pesquisas, o eleitor que mora lá no interior do Maranhão ou de Pernambuco, por exemplo, não se importa com Ratinho Jr ou Ronaldo Caiado. Ele não tem sentimentos fortes sobre eles. Porém, este já sabe quem é Lula e já sabe quem é Bolsonaro. Lula será continuidade para ele ou uma opção menos pior. E Flávio Bolsonaro é “que nem o pai”, sendo esse significado positivo quando a gestão do ex-presidente agradou e negativo quando não. Resta saber então quem trará a melhor narrativa de passado. Repetimos: narrativa do passado. Eles terão dificuldade de falar em futuro durante a campanha. E resta o eleitor escolher em que narrativa ele vai acreditar: o Brasil era melhor com Bolsonaro ou Lula? Hoje, eu quero voltar aos anos da direita ou continuar como está?
Percebemos, ainda, que o eleitor quer ver o preço dos alimentos cair. Quer pagar as contas. Quer pagar menos impostos. A cabeça do eleitor não funciona na dinâmica da polarização, funciona pela dinâmica de em qual discurso ele vai acreditar quando abrir o Instagram ou o Tik Tok. A polarização que cerca o debate público esquece que o jogo político sempre apresentou esse mecanismo dual. As peças sempre vão se encaixar a partir das dinâmicas dos que estão no poder.
O discurso inocente que o brasileiro não tem alternativa por conta da polarização é falho. A dinâmica política brasileira funciona assim e resta saber quem terá o melhor discurso para conquistar o eleitor que espera para ser atendido na fila do posto de saúde enquanto mexe no instagram. Que tem que pegar ônibus todos os dias pro trabalho e passa o tempo olhando o celular. Que tem o celular roubado ou mora em um território dominado por facções. Que vai ao supermecado e reclama do preço do arroz e do feijão. Que fica indignado com a corrupção na política. Não vamos ser inocentes e achar que agora isso vai mudar. Mas, provavelmente, em 2030 teremos surpresas, já que o atual presidente Lula não poderá mais se candidatar.
*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio
Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia. Coautora: Maria Eduarda Oliveira é Graduanda em Ciência Política. Pesquisadora da Cenário Inteligência.



