A Guerra Invisível já começou, e nós, Brasileiros, ainda discutimos orçamento de Defesa (Luiz Alberto Cureau Júnior)

Em 2010, no meu trabalho de conclusão do Curso de Estado-Maior no Uruguai, escrevi que a guerra do futuro não começaria, necessariamente, com mísseis cruzando o [...]

Em 2010, no meu trabalho de conclusão do Curso de Estado-Maior no Uruguai, escrevi que a guerra do futuro não começaria, necessariamente, com mísseis cruzando o céu, mas com países sendo imobilizados por ataques a seus ecossistemas de internet, bancos, energia e comunicações. A premissa era simples, desorganizar a espinha dorsal de uma nação é mais eficiente do que destrui-la fisicamente. Dezesseis anos depois, ao observar o ataque coordenado de Estados Unidos e Israel contra o Irã, a pergunta inevitável permanece, será que ainda não entendemos?

A operação recente demonstrou uma nova lógica de combate. Antes mesmo de aviões entrarem em ação, enxames de drones autônomos saturaram radares, confundiram sistemas de defesa e abriram corredores eletrônicos. Guerra eletrônica, inteligência artificial, integração de sensores e ataques de precisão substituíram o modelo clássico de confronto direto, e ao mesmo tempo, reduziram esforço e preservaram vidas do lado atacante. O objetivo não foi apenas destruir alvos físicos, mas cegar, desorganizar e neutralizar a capacidade de reação do adversário. A guerra tornou-se rede contra rede.

Essa realidade confirma o que já se desenhava há anos, conflitos modernos começam no domínio cibernético e no espectro eletromagnético. Energia, telecomunicações, sistema financeiro e infraestrutura crítica tornaram-se alvos prioritários. Um país pode ser paralisado sem que um único soldado atravesse sua fronteira. A expressão “boots on the ground” não desapareceu, ainda haverá o infante que precisará ocupar terreno e consolidar resultados, mas hoje ela divide espaço com algoritmos na nuvem e sistemas autônomos que preparam o campo antes mesmo do primeiro disparo.

Em recente artigo publicado no Uruguai, o Coronel Pedro Gómez reforça essa preocupação ao alertar para os riscos e oportunidades da inteligência artificial na segurança e defesa. Ele destaca a necessidade de supervisão humana, soberania digital e pensamento crítico diante da automação. Mais do que tecnologia, trata-se de controle, ética e capacidade estratégica. A dependência de soluções externas, especialmente em ciberdefesa e infraestrutura em nuvem, pode representar uma vulnerabilidade silenciosa e profunda.

O Brasil, contudo, ainda insiste em tratar defesa como despesa, e não como investimento estruturante. Enquanto potências desenvolvem guerra centrada em redes e capacidades autônomas, seguimos presos a debates orçamentários que ignoram a transformação do campo de batalha. Não se trata apenas de adquirir equipamentos, mas de desenvolver um ecossistema tecnológico próprio, integrar indústria, academia e forças armadas e garantir soberania digital.

A guerra invisível já começou. Ela atinge sistemas, dados, energia e percepção. Quem não compreender isso continuará acreditando que defesa é custo, até descobrir, tarde demais, que soberania não se improvisa.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor climático do instituto Climático VBH

Compartilhe esse artigo: