A gaiola que ninguém construiu (por Elson Pimentel)

Quando eu tinha cinco anos, havia um poste de metal na larga calçada da minha casa em Belém. Um dia [...]

Como o pensamento dualista organiza e aprisiona a nossa mente

Quando eu tinha cinco anos, havia um poste de metal na larga calçada da minha casa em Belém. Um dia comecei a correr em volta dele com o braço estendido e a mão encostada no poste. Girei até cair, tonto. Levantei, sacudi a poeira e repeti o movimento. Dessa vez, porém, havia algo diferente: aprendi a parar antes de cair.

Essa pequena experiência de infância me voltou à memória quando recebi o comentário de uma amiga sobre um artigo que escrevi. Ela escreveu, com a seriedade de quem pensa de verdade, que somos sempre prisioneiros das nossas próprias redes, que o dualismo é inescapável, e que talvez só uma “terceira realidade” nos libertasse. E então ela mesma se perguntou: mas essa terceira realidade também não nos aprisionaria?

Ela havia girado em torno do poste — e caído. O que ela ainda não sabia era que isso não é o fim do movimento. É o começo do aprendizado.

A gaiola sem grades visíveis

Vivemos, na maior parte do tempo, mergulhados numa estrutura de pensamento que organiza toda experiência em pares opostos: bem e mal, liberdade e prisão, eu e o outro, real e ilusório. Essa estrutura não é uma teoria que alguém adotou conscientemente. Ela é anterior ao pensamento: é a forma como o pensamento se monta, antes mesmo de começar.

O problema não é usar distinções, mas passar a ser governado por elas como se fossem o único formato possível. Quando minha amiga imaginou uma ‘terceira realidade’, avaliou-a com a mesma régua: libertaria ou aprisionaria? A gaiola não tem porta porque até a ideia de porta já nasce dentro dela.

E há uma ironia inevitável nisso tudo: para falar dessa estrutura, eu mesmo preciso usá-la. Não há um ponto completamente fora dela de onde possamos descrevê-la com pureza.

Há pelo menos duas razões para que essa estrutura seja tão difícil de perceber. A primeira é simples: definir algo já é excluir o seu oposto. A segunda razão é mais sutil: o dualismo funciona. Ele produz decisões rápidas, categorias eficientes. O cérebro que distingue ameaça de não-ameaça em milissegundos tem vantagem evolutiva. E tendemos a confundir o que é útil com o que é verdadeiro.

Nada disso significa que a realidade funcione assim, de maneira absoluta. Ainda assim, é dessa forma que conseguimos organizá-la quando pensamos.

 Os que tentaram sair, e o que encontraram

Esse não é um problema novo. Há mais de dois mil anos, pensadores de tradições muito diferentes perceberam a armadilha e tentaram descrevê-la — ou escapar dela.

Heráclito, filósofo grego do século V a.C., viu opostos em toda parte: quente e frio, dia e noite, guerra e paz. Ele é mais lembrado pela imagem do rio que nunca é o mesmo duas vezes. Sua intuição central, porém, era outra: os opostos não são coisas separadas, são um mesmo processo visto de ângulos diferentes. O caminho que sobe e o que desce são o mesmo caminho. A tensão entre eles não destrói a unidade; é o que a sustenta.

Hegel tentou resolver o problema pela dialética: cada oposição seria superada numa síntese. Essa síntese logo vira uma nova oposição, reiniciando o processo. Em vez de abrir a gaiola, ele a transformou numa escada infinita.

O que essas tradições convergem em dizer é que a saída, se existe, não é um pensamento mais sofisticado. É uma mudança no modo de se relacionar com o próprio pensamento.

A vertigem dos espelhos

Há uma peculiaridade perturbadora nesse tipo de aprisionamento mental: diferente de outras formas de dominação, aqui não há dominador externo. Quando um trabalhador é explorado por uma plataforma digital, existe ao menos um sistema identificável, que é opaco e injusto, porém localizável. Em artigo anterior em CAPABRASIL, “Livres, mas vulneráveis“, discuti como algoritmos dominam sem coagir. Na gaiola do pensamento dualista, o mesmo mecanismo opera mais fundo: o dominador e o dominado habitam o mesmo espaço, a própria mente.

Quando alguém tenta examinar o dualismo, usa a própria ferramenta que quer investigar. O resultado não é clareza progressiva, mas multiplicação de reflexos: espelhos refletindo espelhos, até que o fundo desapareça.

A autoconsciência não resolve o problema, apenas o desloca um andar acima.

Girar sem cair

Volto ao poste. O que aconteceu na segunda vez não foi que aprendi uma teoria sobre tontura. Eu não calculei nada. O que mudou foi mais sutil: era como se surgisse um ponto de atenção que acompanhava o movimento enquanto ele acontecia. Eu continuava girando, mas já não era apenas o giro. No corpo, aprendemos a ajustar o movimento sem eliminá-lo. Talvez algo semelhante aconteça no pensamento.

Há aqui um eco do que Kant chamou de apercepção transcendental: aquele ‘eu penso’ que acompanha nossa experiência sem se perder no conteúdo do que é pensado. No entanto, a versão do poste tem uma vantagem sobre a Crítica da Razão Pura: ela é incorporada, vivida, não deduzida.

O que isso sugere é que a saída da gaiola cognitiva não é destruir o poste, é aprender o tempo certo para girar sem cair. A saída não é uma ‘terceira realidade’ mística, mas uma mudança de perspectiva: uma posição recuada que utiliza a estrutura binária sem ser devorado por ela.

A vertigem e a compreensão profunda se parecem quando vistas de dentro: ambas produzem a sensação de que o chão está cedendo. A diferença está na resposta que se dá a isso. A vertigem pede resposta imediata. A compreensão, ao contrário, tolera alguns instantes sem resposta. E a descoberta de que o não-resolver também é uma forma válida de tolerar o problema.

O que oferecer a quem caiu

Minha amiga-leitora ainda estava na primeira volta. Ela girou até o limite, sentiu o chão ceder, e relatou a vertigem com honestidade intelectual rara. Significa que ela tocou de verdade na estrutura, não apenas leu sobre ela.

O que se pode oferecer a quem está nessa posição não é uma saída da gaiola — ninguém tem isso. É a companhia de quem também a reconhece, e sabe que reconhecê-la já é diferente de estar preso nela sem saber. A questão central deixa de ser ‘como escapar?’ para tornar-se: ‘você consegue notar o giro enquanto gira?’. Não para parar o movimento, e sim para não ser apenas ele. Quando se consegue, a queda ainda acontece às vezes. E você se levanta diferente.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

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