
Vivemos tempos de criança antes mesmo de sabermos nomear o que sentíamos. Éramos tocados pelo clima do mundo em nosso entorno, por olhares, tons de voz, presenças e ausências. Gestos mínimos iam deixando marcas silenciosas.
A infância foi um tempo de impressões. O mundo ainda não tinha forma definida; tudo chegava como sensação. Marcas leves, quase invisíveis, passaram a nos acompanhar. Antes das palavras, aprendíamos, sem saber, o que era segurança, espera, medo ou confiança. Foi ali que começamos a aprender como habitar a vida.
No mundo adulto, essa criança não desaparece. Ela segue presente, em movimento, operando de forma discreta, sem pedir autorização, participando das escolhas antes mesmo que saibamos reconhecê-la. A razão adulta chega depois para organizar o que já estava se formando e atravessa escolhas profissionais, vínculos, rupturas.
A ingenuidade também persiste. Não como falta de inteligência, mas como abertura. Uma capacidade de se deixar levar, de apostar, de se encantar ainda, mesmo depois das perdas.
É essa ingenuidade que oxigena a vida adulta, que impede o endurecimento completo, que mantém alguma circulação onde tudo poderia se tornar cálculo, defesa e controle.
Quando essa criança é totalmente silenciada, o mundo interno empobrece, se entristece. A vida segue funcional, mas sem surpresa. Tudo anda, mas pouco pulsa.
Crescer não é expulsar a criança que habita em nós. É aprender a escutá-la sem ser governado por ela. É permitir que ela siga lembrando, em silêncio, que viver não é apenas sobreviver, é também sentir, arriscar e permanecer vivo por dentro.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



