
Por vezes sem nos darmos conta, todos tomamos muitas drogas diariamente. A tal ponto que nos tornamos mortalmente viciados. A seletiva guerra às drogas tornou-se apenas mais um viciante entorpecente a nos entreter, adoecer e iludir quanto às providências em curso. Difícil identificar uma sociedade, hoje, que não seja composta por drogados. Além dos tóxicos ilegais, muitos outros, também mortíferos, são usados ao abrigo das legislações nacionais.
Uma das características básicas dos entorpecentes, legais ou não, é que, no início do uso, geram prazer e, pois, vontade de repetir a dose. Com o tempo, o usuário aumenta o consumo, torna-se dependente – vale dizer, fica difícil parar o uso –, os efeitos maléficos se amplificam e, à falta de ajuda e tratamento para abandonar o vício, causam a morte. Uma listagem rápida de produtos de consumo elevado e generalizado mostra a amplitude do entorpecimento da dita civilização atual.
A descrição do nosso tempo como uma sociedade do espetáculo ilustra a amplitude do vício, introduzido em nossos hábitos mediante a geração de prazer imediato e danos crescentes a longo prazo. Segundo a Receita Federal do Brasil, em 2025 as plataformas de apostas registraram receita bruta de R$37bilhões, com 25,2 milhões de apostadores ativos, muitos dos quais seriamente endividados, com vida problemática. As casas de apostas utilizam a chamada “arquitetura econômica da dependência” para reter usuários por meio de vieses cognitivos e design persuasivo. Usam achados científicos para criar produtos que geram prazer no curto prazo e, mais tarde, dor persistente, e muito lucro para poucos. Mesmo princípio de quem produz cocaína ou heroína.
Impossível citar mesmo uma pequena proporção das drogas em que fomos viciados e que ora criam problemas crescentes e graves. Entre outras, os combustíveis fósseis e os plásticos. A alta densidade energética do petróleo e outros fósseis facilitou trabalhos mecânicos, gerando alegria quando sua queima começou. Hoje, seu uso intensivo destrói a biosfera, da qual necessitamos para viver, e mata milhões, na escala de um holocausto por ano. De maneira similar seu derivado, o plástico, facilitou tarefas e hoje penetra em nossos corpos desde quando ainda somos fetos, com efeitos apenas parcialmente conhecidos, mas sabidamente nada positivos. A “arquitetura econômica da dependência” é também usada pelas redes sociais, pelas cadeias de fast food, pelos produtores de espetáculos, inclusive esportivos, pela publicidade, pelos algoritmos que já utilizam a dita inteligência artificial para provocar dependência, e pela busca desenfreada de acumular: capital, novas modas, mais viagens, mais luxo, mais armas de poder crescente, mais, mais e mais…., todos estes produtos tornados mercadorias não com o objetivo de saciar, mas sim gerar mais fome de novo consumo. Drogas, pois!
Essa família de entorpecentes afeta também crianças, que, focadas em suas telas, são viciadas em jogos que lhes dão prêmios psicológicos, portanto reais, como “passar de faze”. Isso, com elevada frequência, como resultado de matar mais “opositores”, retratados como humanos. Tais crianças, quando adultos, como se comportarão?
Há quase meio século sabe-se que os seres humanos não são agentes plenamente racionais; nós respondemos a estímulos e atalhos cognitivos que nos tornam previsíveis e exploráveis por quem conhece esses padrões. Hoje, com a internet, a inteligência artificial, os algoritmos e outros recursos, pela primeira vez na história, empresas otimizam a exploração desses vieses cognitivos, passando de uma arquitetura de massa para uma personalizada, agravando a dependência coletiva a tais drogas! Nesse mecanismo, ocorre grande transferência de renda das famílias, principalmente as mais vulneráveis, para as empresas, e não apenas para as bets!
A lógica dessa estrutura já se difundiu para outros segmentos da economia digital como plataformas de crédito com aprovação instantânea, produtos de compra parcelada sem juros e aplicativos de investimento com premiações operando sob os mesmos princípios comportamentais. O que está em curso é uma transformação estrutural dos mercados digitais, não um problema setorial de apostas. As bets são o caso mais avançado e visível desse processo no Brasil, mas certamente não o último.
Tentativas de regular esses mercados são, com frequência, atacadas e rejeitadas como sendo restrições à liberdade do consumidor. A questão fundamental, no entanto, é saber qual a liberdade que se pretende proteger: se a do capitalista que controla os engenheiros que projetam e gerem a plataforma, ou a do cidadão cada vez mais visto não como tal, mas como consumidor?
Como a civilização atual transformou-se de democracia em plutocracia, caminhamos, parece, para uma massa de drogados-sonâmbulos atuando em prol de meia dúzia de bilionários, estes também drogados pela ganância e pelo vício de acumular capital! Com crianças também drogadas, treinadas em jogos de matar para alcançar objetivos fugazes e fugidios. Como se comportarão, quando adultos? Conseguirão elas, conseguiremos nós, superar o entorpecimento, reconhecer a rápida aproximação do precipício e agir de maneira racional?
Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.



