Robert Francis Drummond (por J.D. Vital)

Pisam nos calos do meu coração toda vez que caminhando na Praça da Savassi, em Belo Horizonte, não encontro Robert Francis. Foi assim no [...]

Pisam nos calos do meu coração toda vez que caminhando na Praça da Savassi, em Belo Horizonte, não encontro Robert Francis. Foi assim no carnaval de fevereiro. Para tranquilizar os peruanos, não se trata de Robert Francis Prevost, o cardeal agostiniano que viveu entre eles até ser entronizado como Papa Leão XIV, o primeiro pontífice norte-americano.

É o xará.

Este também trocou o nome para Roberto Drummond. Por aversão juvenil ao imperialismo capitalista. E por ter no peito “um coração doidivana da América do Sul”, povoado de “pobres e rotos sonhos de justiça social e de oportunidade e chance para todos”, como escreveu na sexta-feira de 20 de agosto de 1993, em O sonho de Bárbara.

Recolheram sua estátua de bronze ao ateliê do escultor Leo Santana, autor da obra, para restauração, após ela amanhecer caída de costas, às vésperas do Natal de 2025.

As câmeras de segurança flagraram pessoas rondando a área. Mas falharam em capturar as imagens de quando o bronze, de 160 quilos, foi derrubado por volta das 2 horas da madrugada de 22 de dezembro.

Roberto, o cronista da Savassi, permaneceu horas estatelado no meio dos passantes apressados. Arrancado do chão que lhe servia de pedestal, no mesmo plano das passistas do samba. Um livro à mão direita. As mangas da camisa cuidadosamente arregaçadas. Os cabelos alinhados pelo gumex. As calças de bainha italiana escorrendo até o calcanhar. A cabeça no ar, sem a nuca encostar no cimento.

Ei-lo, o literato que emocionava o povo na TV e nos jornais, exposto à visitação pública. Ao relento. No bruaá urbano. Sem qualquer cerimônia. Como se deixassem no calçamento da rua, desalojado do esquife acolchoado de cetim púrpura e por folhagens perfumadas de manjericão, o corpo do Senhor Morto, na Sexta-Feira da Paixão da Paróquia de Sant’Ana, em Ferros, onde o atleticano nasceu em 21 de dezembro de 1933.

Foi seu presente de aniversário.

Não combinam com a elegância da personagem as fotos dos dois buracos nos saltos do tênis de onde saiam os parafusos para fixação do homenageado. Um sacrilégio. 

Até agora, pelo que se sabe, os vândalos não foram identificados pela polícia de Minas Gerais. Como não o foram aqueles que picharam a escultura, em 2022, com mãos de tinta azul ou amarelada nos olhos e no peito.

A Savassi sem Roberto Drummond soa como Ouro Fino sem o Menino da Porteira. Baependi sem Nhá Chica. O Serro sem Dona Lucinha. A Academia Mineira de Letras sem o acadêmico Rogério Faria Tavares.

É procurar, sem encontrar, em Bogotá, a estátua de Camilo Torres, o padre guerrilheiro que incendiou, com a chama da Teologia da Libertação, os seminários católicos na América Latina, sob o tacão de ditaduras militares na década de 1960.

Roberto venerava o sacerdote colombiano. Com a mesma devoção dedicada a seu amigo Frei Betto, o dominicano mineiro, autor do best-seller Batismo de Sangue, em quem se inspirou para criar Frei Malthus, de Hilda Furacão. Camilo tombou morto, fuzil na mão. Era seu primeiro combate contra as forças do governo da Colômbia em 15 de fevereiro de 1966. Tinha 37 anos de idade.

A Savassi sem a estátua de Roberto Drummond, enfim, é apagar o Adão nu do mural pintado pela artista Yara Tupynambá para a igreja matriz de Ferros, a 175 quilômetros da Savassi, escondida no Vale do Rio Doce.

Desconfiado como o mineiro que escalou o Pico da Carapuça para verificar se a mineração já ameaça a Serra do Caraça, resolvi ver para crer.

Tomei a estrada para Ferros. Encarei a BR 381 – a velha e a dita nova que agora cobra pedágios de R$ 15,10 do veículo pequeno e R$ 135,90 da jamanta de nove eixos, para o motorista experimentar o sabor de restar, às vezes durante horas, trancafiado em prisão veicular devido a acidentes ou congestionamentos.

Em Bom Jesus do Amparo, peguei o trevo que dá acesso a Itabira, terra do Drummond poeta, o Carlos. Ali, os planos de fechamento das minas da Vale aterrorizam a população.

A mineração pode até encaminhar-se para o esgotamento. Mas a região ganhou um novo roteiro turístico, pleno de emoção e suspense, no trecho da BR 120 que segue para Santa Maria de Itabira, rumo a Ferros. A cada curva, um susto. Aqui, Minas Gerais inventou o “Circuito Ai-meu-Deus-do céu”, como fatalmente Roberto Drummond descreveria a série de placas de advertência aos cardíacos:

Área de risco.

Rota de fuga.

Com os olhos colados nos painéis do pânico, o forasteiro incauto é agarrado pelo colarinho nas trilhas do Rio Doce, nas vizinhanças das barragens da mineração. Um terror para quem se acha atado pelo cinto de segurança. Teme-se o rompimento de alguma delas. Parei em Santa Maria de Itabira. Somente o tempo suficiente para um café na beira da estrada.

Ferros chega sem avisar. Seu nome deriva da corruptela da palavra forros, como denominavam os negros ex-escravizados, segundo hipótese levantada no trabalho de graduação de Bruno Guerra de Moura von Sperling, do Instituto de Geociências da UFMG, citando Vulmar Coelho no livro Uma cidade perdida no sertão, publicado em 1939 pelas Edições Guarany, de Belo Horizonte.  

No final da descida, salta à vista de supetão a igreja matriz de Sant’Ana, presidindo a Praça Monsenhor Alípio. É uma construção em forma de caixote. Um tríptico retangular de linhas retas, moderno, as telhas embutidas, sem curvas barrocas e outros balangandãs coloniais, para abrigar o átrio, a nave central e o presbitério.

No portal da entrada, Wilde Lacerda esculpiu em metalon a imagem surrealista de Sant’Ana, avó de Jesus, com a menina Maria. Um campanário retilíneo sustenta o sino que fiscaliza, à esquerda, o prédio da Câmara Municipal instalado em um sobrado colonial com janelões de guilhotina. E, à direita, vigia o Santo Antônio, que é um rio apressado e atrevido, em corredeira.

Por recomendação do vigário da igreja da Floresta em Belo Horizonte, o padre Francisco Lage Pessoa, natural de Ferros, o projeto modernista foi encomendado ao arquiteto Mardônio dos Santos Guimarães. Seu portfólio inclui duas obras em BH, a Rodoviária e a sede do antigo DNPM, atual Agência Nacional de Mineração, na Praça Milton Campos.

O novo desenho substituiu a matriz oitocentista primitiva, de duas torres e três janelas na fachada, demolida com o consentimento do arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira, e esmagadora aprovação popular. A velha matriz, erguida por escravos, não suportava mais reformas para se manter em pé.

Eram os anos quentes de 1960. Na capital mineira, Padre Lage destaca-se como líder da ala progressista da Igreja Católica, comprometido com a defesa do operariado e das periferias, particularmente na Vila dos Marmiteiros. Proclamava de cima dos telhados as semelhanças entre Cristo e Marx. Então, pregaram-lhe na testa a acusação de “O Padre do Diabo”.  O sacerdote sofreu a perseguição dos adversários políticos, foi brutalmente torturado nas prisões da ditadura militar e depois exilado.

No jornalismo, um rapaz esquerdista apaixonado, vindo de Ferros, casa-se em 2 de fevereiro de 1960 com a linda conterrânea Beatriz Moreira, conforme as fotos exibidas no Centro Cultural Roberto Drummond, construído em sua homenagem pela Prefeitura.

Em carta à amada, datada de 17 de novembro de 1959, Roberto, à espera do grande dia, confessa seu encantamento, entre palavras de carinho. “Muitos abraços e beijos (não consigo nesse ponto ser econômico, … muito ao contrário). ” Informa que já mandou fazer as alianças. Elas ficam prontas na “quinta-feira e eu as levarei. O seu brinco, eu levo também”.

Diz-lhe: “eu melhorei muito como homem desde que nos conhecemos”. A musa de Ferros mudou sua vida, o modo de enxergar as coisas. Fez dele um homem que faz planos para a vida a dois.

Roberto compartilha com a moça a ansiedade que castiga o repórter em início de carreira, à procura de um lugar na calçada da fama. “O Prêmio Esso, querida, não está fácil. Há 200 reportagens concorrendo. O David Nasser entrou com a série sobre Aída Curi; o Mário Morel com a “Corrupção na Polícia”. Confia, desconfiando, nos votos da comissão julgadora que imagina formada por Wilson Figueiredo, do Jornal do Brasil, Paulo Silveira, da Última Hora, e Nilson Viana, do Diário de Notícias.

Padece da dúvida em relação ao voto do Wilson Figueiredo, capixaba nascido em 1924 e criado em Minas Gerais, na patota dos geniais Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino.

Revela-lhe que a “Esso está fazendo forças para que o prêmio seja dado para uma reportagem sobre Brasília”. Aguarda o resultado “tranquilo, mas realista”, sabendo que sua reportagem é boa. Contudo, “não conto com o primeiro lugar”.

O noivo de Beatriz concorria com reportagem veiculada no semanário Binômio, em 1959, sobre o tráfico de nordestinos em Montes Claros. Roberto comprou um casal de retirantes, Manuel e Francisca, por quatro mil cruzeiros, o equivalente a 200 dólares. Pagou e pegou recibo do “Seu Juca”, motorista do caminhão “pau-de-arara, com placa de Campina Grande, na Paraíba” – contou, anos mais tarde.

Roberto Drummond errou feio. O Prêmio Esso principal saiu para Mário Mazzei Guimarães, da Folha de S. Paulo, com a série de 16 reportagens intitulada “Um Rio desafia o Brasil”, sobre o São Francisco. O autor ganhou Cr$ 150 mil e uma viagem a Nova York. David Nasser, de O Cruzeiro, com a obra “Por uma menina morta”, e Mário Morel, da revista Mundo Ilustrado, com a matéria sobre a corrupção policial, receberam apenas “menção honrosa”. Além disso, o grande Wilson Figueiredo não integrou o júri.

Roberto Drummond veio premiado pelo Esso Regional, duas vezes nos anos seguintes, por matérias publicadas no Estado de Minas:  na edição de 1966, com “Interpretação econômica do futebol brasileiro”, que lhe valeu um cheque no valor de Cr$ 500 mil; e em 1969, com “Mulher, receita mineira”.

Em Ferros, o plebiscito realizado em 1961, venceu, por 3.550 votos a favor e 68 contra a proposta pela demolição e a construção de um templo moderno, se possível, com as feições da Igrejinha da Pampulha do arquiteto comunista Oscar Niemayer. Com o apoio de Roberto Drummond.

A matriz bossa-nova foi inaugurada em 1972, dez anos após o início das obras. Avancei pelo salão. Ao fundo, como uma tela de cinema posicionada atrás do altar-mor, vejo o mural “A Árvore da Vida” pintado pela artista Yara Tupynambá Gordilho Santos, de Montes Claros.

Adão permanece nu, incólume. Não apagaram o pinto dele, no linguajar usado pelo também jornalista e escritor Wander Piroli. Nem lhe botaram um tapa-sexo no estilo do Papa Clemente 13 que em 1760 mandou cobrir com folhas de videira os falos abundantes nos murais renascentistas do Vaticano. A Eva de Yara, mais esperta, tampa os seios com o braço esquerdo e usa a mão direita para esconder a genitália.

As beatas locais acostumaram-se, aparentemente, com o esplendor da criação da artista montes-clarense. Elas não se assustam com o nudismo do primeiro casal criado por Deus no paraíso terrestre. Nem entram mais de ré na igreja para não contemplar o que escandalizou a população, conforme Roberto Drummond narra em Hilda Furacão, seu romance transformado em série de sucesso pela TV Globo.

O conjunto artístico de Ferros, tombado como patrimônio municipal, carece, porém, de alguns cuidados de conservação. Os vitrais das janelas, de autoria de Mário Silésio, encontram-se em bom estado, diferentemente da filha de Sant’Ana, mãe de Jesus, que tem a base corroída pela ferrugem. Os painéis do mural apresentam bolhas com sinais de infiltração na parte de cima, por causa de vazamento no teto. Na parte de baixo, junto ao chão, são visíveis os danos provocados pela água despejada na faxina, com rachaduras e perdas de massa na parede, onde Yara colocou sua assinatura e os nomes das assistentes Joyce Brandão, Maria Lúcia Marques e de quem mais não dá para descobrir.

Cuidar da “Árvore da Vida” significa zelar pela memória do filho ilustre. O Adão nu foi salvo da censura conservadora graças a Roberto Drummond. Ele publicou matérias no jornal Estado de Minas, com repercussão no noticiário nacional, sobre a polêmica que dividiu e incomodou Ferros mais que a demolição da matriz antiga, condenada pelo historiador Augusto de Lima Júnior como um atentado ao patrimônio histórico.

Belo Horizonte bem que poderia acompanhar Ferros no mutirão de louvores ao escritor, que morreu na cidade em 21 de junho de 2002. A começar por devolver imediatamente sua presença à Savassi. E, em seguida, corrigir a grafia de seu nome na placa da praça em frente à sede da Fiemg, na avenida do Contorno, 4456.

Dizia o governador Hélio Garcia, amigo de Roberto, que a melhor maneira de irritar e insultar um político mineiro é errar o nome dele. Nas duas placas, entre aparelhos de ginástica, o descuido da Prefeitura ofende a memória de quem pretendia homenagear. Está escrito: Praça Roberto Drumond. Com um eme só.

J.D. Vital é jornalista e escritor, membro da Academia Mineira de Letras e presidente emérito da centenária Banda de Música Santa Cecília de Barão de Cocais.

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