
Há momentos do ano em que algumas verdades escapam.
O Carnaval não é a única oportunidade.
Mas talvez seja a mais explícita. Uma autorização coletiva do desejo.
Durante alguns dias, multidões se permitem viver algo que permaneceu soterrado no restante do tempo. Desejos que, no cotidiano, se escondem atrás de subterfúgios socialmente aceitos ou cuidadosamente manobrados. Outros que se manifestam de forma invertida, em irritação, rigidez, excesso de controle.
A festa não cria o desejo.
Ela apenas suspende a vigilância.
Como a luz do sol que atravessa a lente e invade a imagem, há forças em nós que não cabem na moldura da rotina. Podemos organizar agendas, cumprir papéis, sustentar aparências, mas algo insiste em brilhar por frestas.
O que aparece no Carnaval não é apenas fantasia.
É revelação.
Revelação de corpo, de impulsos, de alegria. Às vezes de agressividade, às vezes de carência, às vezes de tristeza. A intensidade coletiva expõe o quanto necessitamos de espaços onde o desejo não precise se disfarçar.
O problema talvez não esteja no excesso em fevereiro.
Talvez esteja na contenção permanente dos outros meses, alimentada por fatores sociais, culturais e pessoais que nos empurram à adaptação constante.
Quando a quarta-feira chega, as fantasias voltam ao armário.
Mas o que foi vivido não desaparece. Retorna ao subterrâneo, esse território interno que navega em águas turvas, ou encontra outras formas, muitas vezes menos conscientes, de expressão.
A pergunta que fica não é se devemos permitir ou não a expressão do que está contido em nós.
É se conseguimos reconhecer, ao longo do ano, aquilo que insiste em escapar.
Porque o desejo não deixa de existir quando é ignorado.
Ele apenas muda de forma.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



