O Mercado Central (por José Emílio)

Dizem que a grande praia de Belo Horizonte são os inúmeros bares que esta cidade tem e disso não se pode duvidar, mas a maior praia daqui é o [...]

Dizem que a grande praia de Belo Horizonte são os inúmeros bares que esta cidade tem e disso não se pode duvidar, mas a maior praia daqui é o seu famoso mercado central que, além de muita coisa boa, possui vários bares no seu interior.

Naquele espaço democrático as pessoas se encontram, principalmente nos finais de semana, onde acontece de tudo. Se quiser ver um conterrâneo, vizinho, colega de trabalho…, não se assuste, pois ele pode estar perambulando pelos longos corredores do mercado. Passeando por lá, já ouvimos muitos diálogos onde as pessoas perguntam pela mãe, pai, irmãos, bichos de estimação…, pessoas que não se veem há muitos anos, enfim. Mercado é um estabelecimento comercial muito comum em toda a parte do mundo desde os primórdios, mas sendo o mineiro um tipo muito singular, ele tem verdadeira adoração por esse ambiente característico. Talvez, devido ao tipo de colonização que aconteceu por aqui e a outras coisas mais.

O Mercado Central de Belo Horizonte é muito especial, e nas andanças pelos seus inúmeros corredores sente-se aquele delicioso aroma de pomar, horta, flores, cozinha mineira. Ali, por alguns momentos, nos transportamos para nossa infância e adolescência cheias de alegria e felicidade. É um lugar convidativo para ser invadido com muita sede e fervor, tendo a certeza de que se está num lugar muito sagrado, palco de saborosas histórias, algumas já conhecidas pelo mundo afora.

O saudoso arquiteto Álvaro Hardy, o Veveco, que foi homenageado por Milton e Brant na música: “Veveco, panelas e canelas”, gravada por Beto Guedes, era um habitué do local. Quase todos os finais de semana marcavam ponto pois, como gourmet de muita categoria, comprava os ingredientes lá aproveitando para tomar umas e outras e beliscar variados tira gostos. Num desses sábados ele deixou as visitas na sua casa e foi para o mercado comprar os apetrechos, e fazer a costumeira via sacra pelos bares. Ao chegar em casa, a fim de preparar o prato, um lombo especial, tão aguardado pelos convivas, ao abrir o embrulho sobre a bancada da cozinha caiu uma calça jeans dessas com tonalidade roxa. Sem notar, ele pegou o embrulho errado naquela confusão em que os bares se transformam à medida que o tempo e o grau vão aumentando. Com certeza, em outro canto dessa cidade alguém se preparava para vestir uma manta de lombo.

Mas o mercado é muito mais ainda; um amigo nosso, que mora em Brasília, vem pelo menos umas quatro vezes ao ano e passa o final de semana praticamente lá. Na capital federal não tem essa beleza, como ele sempre observa maravilhado. É o caso de autoridades do mundo judiciário do nosso estado: desembargadores, juízes, promotores, procuradores…, que de tanto freqüentar aquele local nos finais de semana, para um maior conforto, alugaram um espaço onde funciona a confraria deles, e todos os finais de semana recebem seus convidados a fim de saborear as iguarias que levam ou preparam por lá mesmo.

A peça publicitária do mercado que é veiculada pela imprensa diz: “está procurando, no mercado central você encontra!” E é a pura verdade. Naquele lugar mágico tem muita coisa que a maioria das pessoas nem imagina. Uma ocasião, num sábado, tínhamos um aniversário de criança para ir e, naturalmente, tínhamos que levar um presente. Acontece que o tempo estava curto, a prosa muito boa, o burburinho aceso e ausentar daquele ambiente seria quase impossível, quando apareceu a solução. Ao sair para ir ao banheiro, ouvimos um salvador: miau, miau!…, pronto, a ideia clareou no ato e compramos um gatinho “ao vivo e em cores” para o garoto aniversariante. O presente fez o maior sucesso entre a garotada, desbancando todos os demais. No outro dia, logo cedo, a mãe nos ligou, pois o menino chorava copiosamente, o bichano havia pulado do quarto andar do prédio, esborrachando-se na área interna e tivemos que providenciar outro com uma devida urgência, desta vez sem os costumeiros entorpecentes com os quais eles sossegam os bichinhos do mercado. Um dos poucos casos em que aquele estabelecimento é meio que politicamente incorreto.

Por ser um ponto de encontro da melhor qualidade, tem o seu lado glamouroso, e somos testemunha de alguns namoros e casamentos iniciados nas tardes de sábado. Tem também os que foram desfeitos ou que entraram em crise, isso quando um dos parceiros foi fazer suas compras, encontrou conhecidos e, devidamente motivados, acabaram postergando a volta com os apetrechos, coisa que sempre traz graves problemas de relacionamento.

Como se não bastasse, na época da política todos os candidatos, obrigatoriamente, passam por lá, nesse caso o mercado central funciona como um termômetro eleitoral, várias tendências da sociedade têm representatividade naquele espaço, inclusive pessoas de todas as regiões do estado.

Sendo um lugar de referência nacional e até internacional é muito corriqueiro pessoas famosas perambularem por lá quando passam pela capital mineira e algumas são figurinhas carimbadas. Já tivemos oportunidade de encontrar a bela Sônia Braga várias vezes bem como Gal Costa, Fernandona e Fernadinha Montenegro, Marisa Monte, Fernando Sabino, Luiz Fernando Veríssimo… Agora frisson aconteceu quando o jornalista José Maurício publicou uma página inteira no caderno de cultura do Estado de Minas, há um tempo atrás, sobre a visita que o roqueiro Mick Jagger fez a Minas para conhecer Ouro Preto e passou uma tarde no mercado central comendo fígado acebolado na chapa com jiló e tomando cerveja. Depois da matéria, uma legião de fãs dos Rolling Stones de todo o país começou a peregrinar pelos corredores do mercado tirando fotografias nos vários bares possivelmente visitados por ele. Nunca se consumiu tanto tira gosto na chapa como depois que a matéria saiu no jornal, inclusive gente que detestava jiló passou a gostar. A nossa sorte é que na época não havia ainda a internet senão o nosso velho mercado até hoje estaria sendo invadido pelas hordas “stonianas”.

Ernest Hemingway disse em um dos seus livros que Paris é uma festa, nós mineiros acreditamos muito nisso e também reivindicamos esse titulo para inúmeras situações que presenciamos ou tivemos notícias no nosso querido mercado central.

José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista

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