
Você já traiu uma expectativa em troca de um ganho imediato? No Problema de Newcomb, isso custa um milhão. Imagine estar diante de um desafio que lhe é proposto. Não se trata apenas de dinheiro; ele coloca em xeque nossas noções de livre-arbítrio, racionalidade e confiança. Do outro lado está alguém que conhece bastante a sua mente e é capaz de prever a sua resposta antes de você decidir.
O Problema de Newcomb é, ao mesmo tempo, um paradoxo lógico e um dilema que testa nosso caráter. Há mais de meio século, ele divide filósofos e matemáticos entre a frieza do cálculo e a força da intuição.
O Jogo das Caixas
Formulado pelo físico William Newcomb e popularizado por Robert Nozick em 1969, o problema é aparentemente simples. Diante de você estão duas caixas. A Caixa A é transparente e contém, visivelmente, R$ 1.000. A Caixa B é opaca e pode conter R$ 1 milhão ou nada.
Você tem duas opções: pegar apenas a Caixa B ou pegar ambas (A e B).
Testando a sua escolha, há um Preditor quase infalível, que já fez (ontem, por exemplo) uma previsão sobre sua escolha:
— Se previu que você pegará apenas a B, colocou R$ 1 milhão em B.
— Se previu que a ganância o fará pegar ambas, deixou a B vazia.
O dinheiro já está (ou não) na Caixa B. Nada que você faça agora mudará o conteúdo. Uma lógica simples diz: ‘Pegue as duas!’ Afinal, o dinheiro já está (ou não) na caixa. Mas há outro raciocínio: o Preditor não adivinha; ele reconhece padrões. Se você é do tipo que sempre pega as duas, ele já viu isso ontem e deixou a caixa B vazia. Pegar só a B, portanto, é sinalizar que você é uma pessoa diferente desse padrão.
Aqui reside o paradoxo: estamos diante do conflito entre duas racionalidades, ambas plausíveis. Uma lógica (causal) diz: ‘O conteúdo já está definido, então pegue as duas!’ A outra (evidencial) responde: ‘Mas se você pegar as duas, é porque o Preditor já previu isso e deixou B vazia’.
Dentre os inúmeros exemplos que se assemelham a esse desafio lógico, separamos três casos: um casal, o planeta e a fé. Podem não ser iguais ao caso puro, mas, ao substituir dinheiro por valores, destacam diferentes aspectos da vida que nos fazem pensar.
O Casal: A Fidelidade como Aposta
Num relacionamento, você enfrenta um dilema semelhante ao de Newcomb. Seu parceiro age como o Preditor: ele não lê seus pensamentos, mas observa seus atos ao longo do tempo. A Caixa A representa a tentação imediata (uma traição, por exemplo). A Caixa B simboliza a confiança e o futuro do relacionamento.
Se você costuma ceder a tentações pequenas, seu parceiro já ‘previu’ que você pode trair, e a confiança (a Caixa B) já estará comprometida.
A ‘decisão’ de ser fiel não surge apenas no momento da tentação, mas é construída diariamente em pequenas escolhas. Acontece nos micro-momentos: ao responder mensagens no trabalho tarde da noite, ao omitir detalhes sobre um happy hour, ao olhar demais para o aplicativo de relacionamentos. É ali que você constrói o padrão.
A sensibilidade ao valor da tentação aqui é crítica. Se a aventura vale pouco e a perda do relacionamento vale muito, a escolha óbvia é a fidelidade. Mas se a aventura parecer valer quase um ‘milhão’, a traição se torna tentadora.
A Humanidade e o Planeta
Aqui, a Terra age como um Preditor que não adivinha, mas responde aos nossos padrões coletivos. Se somos uma espécie que sempre ‘pega as duas caixas’ (explora sem cuidado), a natureza nos entrega uma Caixa B vazia: um futuro insustentável. Não é punição; é consequência. Diferentemente do caso do dinheiro, onde o erro custa apenas cifras, aqui a ‘traição’ da sustentabilidade elimina a possibilidade de o jogo continuar.
O paradoxo ambiental é que a racionalidade econômica individual se transforma em irracionalidade coletiva.
O Dilema Teológico: Onisciência e Liberdade
Imagine agora que o Preditor seja uma inteligência onisciente — Deus, no sentido clássico da tradição filosófica. A Caixa A representa os prazeres imediatos do mundo; a Caixa B, a promessa de uma vida plena, seja ela a salvação, realização espiritual ou sentido último. Se Deus onisciente é o Preditor, a questão é se sua disposição para renunciar à Caixa A revela um caráter que faz a previsão ser a de salvação.
O paradoxo, então, redefine a liberdade: não é escolher qualquer coisa, mas construir um caráter tão alinhado com o bem que a escolha certa se torna natural.
A Racionalidade da Renúncia
O que une o marido infiel, a humanidade poluidora e o crente em busca de salvação? Todos enfrentam a tentação de Newcomb: a ilusão de que podemos agir independentemente de nossa natureza previsível.
A solução do paradoxo não está na matemática, mas no espelho. A escolha final é apenas o reflexo de quem você já se tornou. Quando as caixas aparecem, você já escolheu. A pergunta não é ‘uma ou duas?’, e sim ‘que tipo de jogador tenho sido até hoje?’.
Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG
Autor de Dilema do Prisioneiro: da Teoria dos Jogos à Ética



