
Minha filha tinha cerca de dez anos quando respondeu assim à pergunta “o que é música?”, em um concurso promovido pela Editora Abril, na revistinha da Mônica.
Anos 80, talvez início dos 90. Um tempo em que as crianças ainda respondiam sem a preocupação de explicar demais o que diziam. Interessavam-se, com prazer, por leituras saudáveis e consistentes. De revistinhas inteligentes a livros de capa dura, com desenhos ilustrativos, ou não. Em seus mundos, entre brinquedos e distrações, estava acarinhada a biblioteca com suas leituras preferidas. Suas mentes eram mais calmas e a curiosidade movimentava seus mundos, mapeando interesses.
A frase venceu o concurso.
Dias depois, para nossa surpresa, chegou em casa um piano de cauda Hering como prêmio. Um piano de verdade, não simbólico, não apenas decorativo. Significativo. Um objeto concreto, que ocupava espaço na sala e alterava a dinâmica da casa. Como a música costuma fazer quando é levada a sério. E Gabi, feliz com o seu feito despretensioso.
Lembro menos do piano em si e mais do que ele provocou. Havia ali algo desproporcional, no melhor sentido: uma criança formulando uma definição essencial e o mundo adulto reconhecendo, talvez sem perceber, que aquela frase continha algo verdadeiro.
Porque música não é apenas som.
Não é execução.
Não é técnica.
Música é o que acontece depois que alguém realmente escuta.
Talvez por isso aquela resposta tenha atravessado o tempo. Ela não tentava definir a música, mas apontava para uma consequência. Como se dissesse que ouvir, quando é de fato ouvir, produz algo em nós. E esse algo é a música que nos toca emocionalmente.
O piano ficou.
O tempo passou.
A frase permaneceu.
Hoje, quando penso nessa história, percebo o quanto desaprendemos a ouvir. Vivemos cercados de sons, estímulos, notificações, mas raramente em estado de escuta. A música, quando existe, virou fundo. Trilha para outra coisa. Nunca centro.
Talvez por isso essa lembrança retorne agora.
Não como nostalgia, mas como critério. E, claro, como o orgulho de ser mãe da Gabi, que escuta desde pequena.
Porque escutar de verdade não é um traço episódico: é uma forma de estar no mundo. Estrutura escolhas, molda relações, orienta decisões. Quem aprende cedo a ouvir desenvolve uma inteligência que não é apenas cognitiva, mas relacional, capaz de perceber nuances, silêncios, movimentos antes que se tornem ruído.
Aquela frase infantil não anunciava uma vocação musical. Anunciava uma disposição. Uma forma de atenção que, com o tempo, se transformaria em repertório humano. Hoje, em um mundo adulto, veloz e altamente exigente, aquela criança atua como executiva em ambientes complexos, onde escutar é tão estratégico quanto falar e, muitas vezes, mais.
Talvez seja isso que a música ensine, sem alarde:
que ouvir bem não produz apenas som.
Produz futuro.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



