O que ainda floresce (por Vera Helena Castanho)

O futuro não nasce de planos perfeitos. Nasce de ambientes que permitem tentativa. [...]

O futuro não nasce de planos perfeitos. Nasce de ambientes que permitem tentativa.

O início de um novo ano costuma despertar em nós uma sensação silenciosa de passagem. Algo se fecha, algo se abre. Não necessariamente com clareza, mas com a intuição delicada de que novos caminhos estão disponíveis, mesmo que ainda não saibamos exatamente quais.

Talvez não seja preciso começar o ano com respostas. Talvez baste começar com atenção. Com a disposição de caminhar confiando que o sentido se revela no percurso, e não antes dele.

A vida raramente se apresenta como um roteiro pronto. Ela se oferece em fragmentos, sinais, encontros e pausas. E há uma sabedoria tranquila em aceitar que nem tudo precisa estar decidido para que o movimento aconteça.

Existe uma dimensão profunda do aperfeiçoamento humano que nasce justamente aí: na capacidade de escutar a si mesmo com mais gentileza. Essa é uma forma de espiritualidade que não exige crença, apenas presença. Uma inteligência que amplia a consciência, afina a percepção e orienta escolhas com sentido.

Entrar em um novo ano é, talvez, menos sobre mudar tudo e mais sobre alinhar-se. Ajustar o passo. Reconhecer o que pede continuidade e o que já pode ser deixado para trás, sem culpa.

Quando confiamos um pouco mais em nós, não na certeza absoluta, mas na integridade do processo, o futuro deixa de parecer uma cobrança e passa a ser um campo de possibilidades.

Talvez o Ano Novo não nos peça grandes decisões, mas confiança suficiente para dar o próximo passo. Não o passo perfeito, nem o definitivo, apenas o possível, aquele que mantém a vida em movimento.

Quando aprendemos a confiar no processo, a esperança deixa de ser expectativa e passa a ser presença. Uma presença serena, que sustenta o caminho mesmo quando ele ainda está se desenhando.

Que 2026 seja vivido com mais abertura do que cobrança.
Com mais escuta do que pressa.
Com mais fidelidade ao que faz sentido do que ao que impressiona.

Novos caminhos não pedem força.
Pedem escuta.
Eles se revelam quando o gesto é honesto
e o passo, mesmo pequeno,
é dado com confiança no que ainda floresce,
mesmo quando o chão parece árido.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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