O segredo no calendário do futebol (por Erasmo Angelo)

No comunicado em que entregou para a mídia o calendário do futebol brasileiro para 2027, o presidente [...]

No comunicado em que entregou para a mídia o calendário do futebol brasileiro para 2027, o presidente da CBF, Samir Xaud, ressaltou o seguinte: “Conseguimos distribuir as competições ao longo da temporada com equilíbrio e racionalidade na definição das datas, além de assegurar flexibilidade para eventuais ajustes”.

Então, vamos lá. Quando a CBF informa coisas como essas, o torcedor pode estar pensando que nosso futebol vai fluir durante todo o ano de 2027 com uma distribuição exemplar de competições e jogos, fáceis de assimilar e guardar seu roteiro em um papelzinho de lembretes na carteira do bolso da calça.

Não é o que parece.

A CBF tem um montão de competições distribuídas no seu calendário do futebol profissional masculino. São elas: Copa do Brasil, campeonatos estaduais, Supercopa Rei (homenagem a Pelé), copas regionais (Verde, Sul-Sudeste e Noroeste), Brasileirão das Séries A, B,C,D. E precisa ajustar esse bolo de competições com as da Conmebol (copas Libertadores e Sul-Americana).

E o torcedor pode ainda imaginar (ou acreditar) que a CBF terá o ano inteiro para ajustar, com facilidade, tamanha quantidade de competições e partidas usando os 365 dias do ano.

Também não é o que parece.

Fique sabendo, caro torcedor, que dos 365 dias do ano de 2027 a Confederação terá apenas 251 dias para arrumar tabelas que comportem centenas de jogos. Isto porque os outros 141 serão ocupados da seguinte forma: 43 dias divididos em quatro Datas Fifa (março, junho, outubro, novembro), que a CBF usa para os joguinhos amistosos da seleção do Ancelotti.

Mais 41 dias em que também não haverá partidas no Brasil por causa da Copa do Mundo feminina de futebol, a ser disputada de 24 de junho a 25 de julho. Somam-se ainda as férias, com mais 25 dias de dezembro (a temporada termina em 5 de dezembro) e cinco dias de janeiro (o calendário começa em 6 de janeiro).

Para ficarmos em um só exemplo, vejam o que o calendário da CBF nos reservas para antes do Mundial feminino. Tudo começa com a Copa do Brasil, a partir de 6 de janeiro, com 128 clubes. Os times da Série A só entram na disputa a partir da 5ª fase, em 24 de fevereiro. Detalhe: esta Copa só acabar em 5 de dezembro.

Janeiro nos reserva o começo de mais duas competições. Os enfadonhos e inúteis campeonatos estaduais terão início em 10 de janeiro e vão até 07 de março. Mas, paralelamente, também começa o Brasileirão/Série A, em 27 de janeiro, campeonato que vai acabar em 1º de dezembro. E a CBF promete que todo o turno (jogos de ida) do Brasileiro, de 19 rodadas, será disputa integralmente no primeiro semestre. E tem mais: neste primeiro semestre, serão disputas, também paralelamente, as primeiras fases das copas Libertadores e Sul-Americana. E no segundo semestre, será a mesma mistura.

O segredo de tudo isto se resume a um objetivo: beneficiar as emissoras de Tv e lotar suas programações com um máximo de jogos diários de futebol. A própria CBF confessa tal objetivo ao informar que “o calendário ganha flexibilidade, o que abre espaço para mais jogos em TV aberta e para mais diversificação das transmissões da Copa do Brasil”.

O presidente da CBF, Samir Xaud, comemorou: “Seguimos entregando um calendário equilibrado, que respeita os atletas, preserva os clubes do topo da pirâmide e dá mais oportunidades a quem precisava atuar”.
 
Realmente, não é o que parece.

Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor

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