Pedras Raras e Gente Rara (por Aldeir Ferraz)

É curioso como grande parte da história do Brasil é um caminho sem fim sobre [...]

É curioso como grande parte da história do Brasil é um caminho sem fim sobre a ganância.

A gente aprende na escola que o ouro, o pau-brasil e a cana-de-açúcar foram a faísca que acendeu essa terra, mas na verdade, foram apenas a lenha para a fogueira da cobiça.

O ter, o sempre ter, foi o mantra que ecoou por séculos e ainda ecoa, transformando nossa riqueza natural em um amontoado de cifras.

A gente se acostumou a ver a natureza como um mero recurso, algo para ser extraído e vendido, sem qualquer tipo de reverência ou conexão.

Mas, como a história é uma construção por várias mãos, também existem as pequenas histórias de quem enxergou algo além.

E foi em uma dessas histórias que me deparei com o Zé Geraldo, Pastor, lá no Distrito de Santa Maria, em Visconde do Rio Branco.

Zé Geraldo era um desses personagens que parecia ter saído de um livro de realismo mágico. Um homem simples, de família grande, mas que tinha uma missão de vida que fugia completamente da lógica do “ter”.

A missão do Zé Geraldo era, para a maioria, uma maluquice: ele andava serra adentro, quilômetros e mais quilômetros, em busca de pedras. Não pedras preciosas, dessas que valem uma fortuna, mas pedras com a tal “conexão divina” que a gente raramente vê hoje em dia.

Para ele, uma pedra não era só um pedaço inerte de rocha. Era um pedaço da história, uma parte do mundo, um ser vivo silencioso que compartilhava o mesmo chão que nós.

Ele não colecionava riquezas, mas sim preciosidades. Cada pedra que ele encontrava era uma vitória, um pedaço da alma do mundo que ele levava para casa.

Não havia valor monetário, apenas o valor da conexão, da relação de pares que ele enxergava entre ele e a natureza. É uma ideia tão simples e tão profunda que chega a ser chocante.

A gente e as pedras, somos todos iguais no universo. Temos o mesmo habitat, o mesmo chão sob os pés, a mesma poeira cósmica.

 Zé Geraldo Pastor, só pastor no nome e não na religião, nos mostrou que o mais valioso não está no que se pode comprar, mas sim no que se pode sentir.

Em um mundo onde a ganância é a regra, onde o ter supera o ser, a história de Zé Geraldo é um sopro de esperança. É um lembrete de que a verdadeira riqueza não está no que extraímos da terra, mas na nossa capacidade de nos conectarmos a ela.

E que talvez, para entender quem somos e qual a nossa parte neste universo, só precisamos de um olhar um pouco mais atento para as pedras no nosso caminho.

Aldeir Ferraz é Político e Escritor

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