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Depois que o Zepelim partiu. Os 10 milhões de Genis (por Glauco Saraiva)

Chamo simbolicamente de milhões de Genis esse conjunto heterogêneo de votos que possibilitou as transformações no segundo turno. [...]

Na música Geni e o Zepelim, Chico Buarque retrata a generosidade de uma personagem marginalizada e desprezada pela sociedade. Diante da ameaça de destruição da cidade, Geni é convencida pelas diversas forças que a compõem — autoridades, religiosos, comerciantes e cidadãos comuns — a se entregar ao comandante do zepelim para salvar a população. A mesma sociedade que a humilhava passa a implorar por sua consciência de coletividade. Geni acaba cedendo, contrariando a própria vontade, em um gesto de coragem e desprendimento. Preferia amar com os bichos, mas dominou seu asco e cedeu ao assédio por empatia e compaixão. Passado o perigo, não houve sequer tempo para agradecimentos. A população retoma os ataques e a maldade habitual, julgando-a inclusive pelo ato que havia implorado que praticasse.

A recente eleição presidencial brasileira me fez lembrar dessa história. Pela primeira vez desde a adoção dos dois turnos nas eleições presidenciais, aconteceu uma reversão da vantagem obtida pelo candidato mais votado na primeira etapa. O fenômeno veio acompanhado de um significativo aumento no comparecimento às urnas e da diminuição dos votos brancos e nulos.

O mundo inteiro ficou impressionado com a mobilização realizada por direita e esquerda, tanto nas ruas, quanto nas redes. Apesar das fakes, o nível de informação e interesse da população impressionou a todos. Debates entre as pessoas passaram a ser menos sobre agressões e denúncias de corrupção, que infelizmente no Brasil atingem o mundo político sem escolher lados, mas sobre os demais assuntos que também merecem ser considerados: economia, responsabilidade fiscal, garantia de direitos, alinhamento geopolítico, degradação ambiental, segurança pública, inflação, qualidade dos serviços públicos, entre outros.

Lula conquistou mais de dez milhões de votos adicionais, superando a vantagem inicial de seu adversário, que também cresceu do primeiro para o segundo turno, O resultado foi uma virada histórica, mas os números sinalizam uma mobilização que merece ser compreendida para além da comemoração dos vencedores.

Eleitores de diferentes posições políticas, inclusive pessoas de centro e de direita, podem ter apoiado Lula por considerarem a candidatura adversária mais problemática. Seria ingenuidade creditar todo o mérito ao gênio político do presidente, cuja experiência e capacidade de articulação, sem dúvida, tiveram importância decisiva. Parte desse apoio pode ter vindo de pessoas que mantinham críticas ao governo.

Chamo simbolicamente de milhões de Genis esse conjunto heterogêneo de votos que possibilitou as transformações no segundo turno. Não pretendo atribuir heroísmo a essas pessoas, nem sugerir que tenham realizado sacrifício semelhante ao da personagem de Chico Buarque. Muito menos dizer que o voto deles é mais importante do que outros. Eles fizeram uma escolha democrática diante de alternativas que não correspondiam inteiramente às suas expectativas. Não entregaram, junto com o voto, suas convicções, suas dúvidas ou o direito de discordar. Votar em alguém não significa aprovar integralmente seu governo, muito menos aderir a um partido. Uma escolha eleitoral pode representar confiança, esperança, resignação ou simplesmente a avaliação de que uma alternativa oferece menos riscos.

Milhões de jovens e idosos foram incitados a participar mais ativamente do cenário político. Corresponderam ao chamado. Merecem atenção especial. Os idosos não deveriam ser premiados com escândalos no INSS ou cortes de aposentadoria para cobrir rombos não previstos no cálculo atuarial. Nem os jovens merecem ganhar o carimbo da descrença e se desiludirem tão cedo. Digo isso porque esses milhões de Genis correm o risco de agora serem esquecidos ou, pior, desprezados caso a euforia pela virada transforme o resultado em uma suposta aprovação irrestrita de um governo exemplar.

O primeiro turno deixou um aviso que não pode ser ignorado. Uma parcela expressiva da população demonstrou sua insatisfação, e o segundo turno não apagou essa mensagem. Trouxe outra, a de que o brasileiro pode querer mudança, mas não atrelada a qualquer liderança.

O voto de confiança precisa ser correspondido com resultados concretos. A política brasileira se tornou um terreno fértil para discursos histriônicos, provocações e personagens que transformam a indignação popular em oportunismo eleitoral de baixo nível. A polarização sustenta esse ambiente, reduzindo a disposição para reconhecer os acertos dos adversários e os erros dos aliados. Mas um país não pode respirar uma campanha eleitoral permanente. A segurança pública não melhora porque se denuncia o extremismo adversário. A responsabilidade fiscal não se estabelece pela repetição de compromissos, assim como o crescimento econômico não acontece por decreto ou entusiasmo.

O governo precisará responder às expectativas de uma sociedade muito mais diversa do que sua base partidária, governando para todos e tentando solucionar os problemas que dificultam a vida dos nossos cidadãos.

A composição do Congresso também desperta preocupações. A convivência entre aparentes rivais políticos pode favorecer acordos necessários à governabilidade, mas traz o receio de que se repitam as negociatas que tanto incomodaram e prejudicaram os brasileiros. Negociar é inerente à democracia; transformar interesses públicos em moeda de troca é uma das práticas que alimentam a descrença nas instituições. A recuperação dessa confiança exige que as suspeitas de corrupção e condutas temerárias de agentes públicos sejam investigadas com rigor, transparência e respeito ao devido processo legal, independentemente dos cargos ocupados, ou pertencimento a grupos ou partidos. Sem apurações sérias e correções justas, a crise de credibilidade das instituições poderá se aprofundar, com consequências difíceis de reverter. Fica parecendo que tudo depende do cenário político, ainda mais quando os ministros da Suprema Corte parecem vestir, cada um, a camiseta de uma cor partidária e usar a caneta dessa mesma cor em decisões monocráticas que atropelam umas às outras. Isso gera instabilidade e a sensação de injustiça, como se fossem aplicados dois pesos e duas medidas a situações semelhantes. O STF tem a difícil missão de realizar uma autocirurgia correcional. Do contrário, o Estado Democrático de Direito estará em perigo, apesar da adesão à democracia pela população.

Passado o pleito fica para a direita o recado de que o clã Bolsonaro não parece representar a resposta para unificar um país tão diverso e dividido. Sua expressiva votação demonstra uma força política considerável, embora seja difícil separar o apoio efetivo ao bolsonarismo da rejeição ao campo adversário. Mas as dificuldades para conquistar uma maioria nacional são evidentes. Outras lideranças e composições deveriam ser avaliadas e trabalhadas desde já, com maior seriedade e disposição para dialogar com setores que não se identificam com o bolsonarismo. Uma direita democrática, comprometida com a estabilidade institucional e os problemas reais do país, precisa encontrar espaço para se apresentar sem depender permanentemente da confrontação política.

Para a esquerda, surge a necessidade de realizar um bom governo e preparar uma renovação que nunca foi planejada com a seriedade necessária. Na hora do aperto, sempre existiu a possibilidade de recorrer à popularidade de Lula, à sua habilidade política e ao reconhecimento que conquistou dentro e fora do país. Sua capacidade de enfrentar e vencer adversários tornou-se uma espécie de garantia eleitoral para o próprio partido. Essa dependência não pode ser eterna. A esquerda precisa formar novas lideranças e construir um projeto capaz de sobreviver à saída de seu principal representante. Um bom governo será fundamental para essa continuidade. Essa é a verdadeira propaganda eleitoral e começa já, sem necessidade de marqueteiros, nem gastos exorbitantes.

O movimento popular construído no segundo turno, com cidadãos conversando com familiares, conhecidos e desconhecidos, procurando convencer pessoas uma a uma, mostrou que ainda existe disposição para participar da vida política apesar do desgaste gerado. O contato humano, tantas vezes substituído por mensagens agressivas nas redes sociais, recuperou importância. Pessoas que não compartilhavam das mesmas ideias encontraram razões suficientes para debater pacificamente e até caminhar na mesma direção. Seria lamentável que esse esforço coletivo terminasse em uma celebração eufórica de superioridade moral, na qual os vencedores se considerassem portadores exclusivos da razão e da virtude.

O perigo que passou, na avaliação de tantos eleitores, deveria provocar reflexão, não arrogância. Essa já foi punida nas urnas, junto com a imaturidade para governar. Mas a democracia exige muito mais do que derrotar candidatos considerados indesejáveis. Demanda governos capazes de enfrentar os problemas que tornam esses candidatos atraentes para parcelas tão expressivas da população.

Daqui a quatro anos haverá outra oportunidade. Muitos brasileiros parecem esgotados de uma polarização que transforma adversários em inimigos. A possível última dança eleitoral de Lula pode representar o encerramento de um ciclo marcado pelo confronto entre as lideranças atuais.

A direita terá de decidir se continuará presa à mesma família. A esquerda precisará demonstrar que existe vida política depois de Lula. Resta saber quem terá mais sabedoria para aproveitar o tempo que falta até lá. O voto de confiança daqueles que hesitaram não pode ser esquecido. Não há motivo para exigir fidelidade de quem ofereceu apenas uma preferência eleitoral. Essas pessoas precisam continuar livres para cobrar, questionar e até oscilar. Sua independência é um dos elementos mais saudáveis de uma democracia.

Na canção de Chico Buarque, bastou o zepelim desaparecer no horizonte para que Geni voltasse a ser alvo da crueldade coletiva. Que isso não aconteça com jovens, idosos e os demais que fizeram um esforço para participar do destino da nação quando nada fazia tanto sentido para eles. Na política, o risco é que, passada a ameaça eleitoral, aqueles que foram indispensáveis à vitória voltem a ser tratados com desprezo quando manifestarem suas divergências. Os milhões de Genis não precisam de homenagens, nem de agradecimentos. Precisam apenas que seu voto seja compreendido pelo que foi: uma escolha, não uma rendição.

O próximo governo tem quatro anos para demonstrar que valeu a pena confiar. Não deveria contar com a possibilidade de mobilizar novamente tantos eleitores pelo temor de uma alternativa pior. Um novo apelo à consciência coletiva pode não encontrar a mesma disposição para ser atendido.

O zepelim partiu. As pedras devem permanecer no chão.

Glauco Saraiva é Escritor.

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