
Eu sempre achei que Lula pertencia àquela estirpe de políticos clássicos brasileiros, que entenderam a lógica do compadrio e do personalismo, da vida “clássica” da política brasileira, mas que sabem que, cada um, precisa se escorar nos seus recursos pessoais mais valiosos para a eleição. O recurso do Lula é o “nós versus eles” e tantos outros que administra à maestria. Mas ele sabe, como poucos, que ele é mais do “nós” do que dos “eles”. Por isto recebe, com razão, a admiração, amizade e compadrio dos maiores caciques tradicionais da política brasileira. Lula é um dos caciques históricos, tal como Sarney, Tancredo, Antonio Carlos Magalhães, Leonel Brizola e outros (deixo de listar Ulysses Guimarães, por razões outras).
Lula é o outro Tancredo Neves, capaz de fazer a transição entre dois momentos cruciais da vida política brasileira, mantendo a paz e a convivência harmônica. Mas precisa administrar uma base de apoio complexa e, por vezes, raivosa, que precisa dele, por um lado, para ampliar sua voz, precisa defendê-lo a todo custo porque é dele que vem a sua força para expansão e demandas, mas, de outro lado, sabe que Lula é mais dos “outros” do que “deles”.
Mas Lula é tanto dos “outros”, quanto é “deles”. É, de fato, um veículo de ampliação do acesso e dos direitos dos muitos esquecidos. E também um veículo de alianças empresariais. Lula é aquele camarada que entendeu quase tudo, que o Brasil tem uma agenda do século dezenove de construção da cidadania nos seus aspectos sociais, econômicos e políticos, e também entendeu que há uma agenda do século vinte e um.
Cometeu os erros típicos das duas pontas que representa na complexidade do espectro político brasileiro. Aceitou a vida de elite e do gozo dos pequenos favores, coisa perfeitamente natural para os comandantes de praxe, da política e da vida empresarial brasileira. Se crucificado, vira mártir e volta à origem, pretensamente radical, que nunca foi.
Em volta dele, a imprensa indica que montou-se um grupo de impunidade. Mas, vejam bem, há quadrilhas perfeitamente institucionalizadas no Brasil, que nunca pagaram por nada. Não há registros claros sobre a construção de Brasília, por exemplo, nem da ponte Rio-Niterói, ou da compra das turbinas e da construção de Furnas. Mas quem ouviu dizer sabe que a quadrilha antecedeu a vida do PT.
Errou sim, o Lula, mas é preciso considerar que benefícios e extrações de vantagens particulares estão na base do funcionamento do sistema brasileiro.
Estamos a fazer política com o fígado, principalmente nas redes sociais, e isto complica tudo. Mas cuidemos para que não seja jogada fora a água do banho com o bebê.
E o judiciário brasileiro, como um todo, é participante desnaturado do conflito distributivo em torno do orçamento geral da União. Eles tiram o que podem, mais do que podem. No longo prazo, não são bons companheiros de viagem. Estão cheios de vantagens e benefícios. O judiciário não é, necessariamente, nosso amiguinho. É uma entidade corporativa brigando por benefícios orçamentários, assim como os movimentos sociais financiados pelo governo do PT, assim como os sindicatos e tantos outros
Parece que estou defendendo o Lula. Mas não é isso. É a lógica das coisas. Difícil aceitar o que somos. Lula é um de nós. Aceita benefícios privados, é simpático e querido, flexiona as regras a seu favor, diz que obedece, mas só faz o que quer. Tem direitos, e não deveres.
Edson de Oliveira Nunes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Berkeley. Foi Presidente do IBGE, Presidente do Conselho Nacional de Educação. É Professor Emérito da Universidade Candido Mendes. Autor



