
“Hier encore” é uma linda música, de Charles Aznavour, que diz “Ainda ontem eu tinha vinte anos, eu acariciava o tempo e brincava com a vida, como se brinca com o amor. Eu vivia a noite, sem contar os meus dias, que fugiam com o tempo…”.
Acreditem, eu também já tive vinte anos, em passado não tão distante, bem guardados na memória. No mundo ainda cabia sonhos, romances, paixões e os amores de uma geração dourada, quando os rapazes eram gentis, ofereciam flores e bombons às garotas, abriam a porta do carro, beijavam suas mãos, mandavam bilhetinhos e declarações de amor. Nestes tempos aconteciam os bailes de debutantes, ao som de orquestras e cronners, a embalar e emocionar as novas e lindas frequentadoras dos clubes e festas sociais. Eram festas anuais, acontecidas em todas as cidades, com repercussão e envolvimento da sociedade local e comunidades vizinhas. Não raro, moças de uma localidade eram convidadas a debutar em outras cidades, causando ciúmes às locais e frenesi entre os rapazes. Eram bailes que marcavam o calendário social, promovidas especialmente pelos colunistas sociais dos jornais, normalmente com a presença de um ator ou cantor famoso, para abrilhantar o acontecimento. Lembro-me especialmente de um, acontecido em Sete Lagoas, no Clube Iporanga, numa promoção do saudoso colunista social Jorge Maciel, do “Jornal Sete Dias”.
A decoração com flores brancas ia da entrada do clube até o salão principal, buquês de rosas, cascatas de orquídeas, cravos, lírios, além das perfumadas flores de laranjeiras. O clima ajudava com a noite de primavera, leve brisa que refrescava, com a humidade vinda do lago em frente. A chegada das garotas, em fila, foi acompanhada de exclamações e suspiros de admiração dos presentes, especialmente dos pais e pretensos namorados. Eu, entre eles.
Mara, no florescer de seus quinze anos, destacava-se entre as meninas pela beleza, porte, elegância e charme, além de sua altura, que a fazia ser a última a entrar. Um breve flerte aconteceu entre nós, o que me permitia desejar e querer dançar com ela. Seu corpo esguio, bem proporcionado, emoldurava um rosto com o brilho dos olhos castanhos, cabelos soltos, a beleza do rosto e do lindo sorriso. Um conjunto que deixava antever a bela mulher que se tornaria. Dançou a primeira valsa, “O Imperador”, com o pai e depois, para meus ciúmes, com o primo que, reconheço, a fez bailar com leveza e ritmo no “Danúbio Azul”. Terminadas as danças protocolares a chamei para dançar. Seu gesto de tirar a luva da mão direita, para encontrar a minha, deixou-me com a agradável sensação de tocar, ao vivo, uma deusa de beleza. Falamos de coisas triviais, dos livros, passeios e filmes, da sua emoção em debutar e acontecer nos belos 15 anos, que desejei fossem eternos. Ela sorriu, chegou seu rosto mais próximo do meu e nossas faces se encontraram com delicadeza e carinho. De mãos dadas a convidei para a sacada do salão, apreciar a vista noturna e iluminada da lagoa. Fomos e, num gesto impulsivo, roubei um beijo de seus lábios trêmulos, em que ela por um instante ficou na dúvida se o permitia ou não. Afastou-se de mim e reclamou de meu gesto. Delicadamente me propus a devolver o que tinha roubado. De novo ela ficou na dúvida. Sorriu, pediu pra voltar ao salão e respondeu – Quem sabe outro dia?
Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor



