
Num dia assim, um céu tão limpo, um azul tão forte, um ar tão leve, falar de quê, falar por quê? Melhor sonhar.
Sonhar com o sonho. O ideal que impele, embasa, amolda, atrai: faz acontecer. Sonhar é necessário, sem que seja preciso. Aliás, o que há de bom no sonho é esse seu caráter de total imprecisão, de nenhuma certeza e muita adivinhação.
Sonhar com a vida, longe da vida, ainda que acordado. Olhar em outra direção. Viver distraído, embora prestando uma atenção danada na forma em que a gente sente tudo o que escuta e vê.
Sonhar sozinho, imaginando que há mais alguém sonhando ou então que sonha para contar a alguém. Mas essa história de contar um sonho é só para alguém muito especial, que pode até nem existir. Nesse caso então, melhor sonhar calado.
Sonhar com a morte, por que não? Que é um jeito devagarzinho de escapar. Ou pode ser uma forma abrupta de se ter paz. Há que se sonhar com ela, nem que seja para entender que a morte nada mais é do que a única forma definitiva de descansar.
Sonhar com a glória, pois há quem goste. A força, o poder, o mando. Passar a vida ouvindo amém, pois sim.
Melhor então sonhar com grana, money, l´argent, denaro! Já vi que acabo de acordar alguém. Pois então que seja. Levanta, homem. Vá. Faça seu sonho e vá vivê-lo já.
Sonhar, sonhar, sonhar. Sonhar com todo o zelo para reservar a hora do céu mais claro, do azul mais puro, do ar mais leve, para então sonhar com ela. Render-lhe graças, fazer-lhe juras, rogar-lhe pragas. Sorrir, chorar, cantar, perambular, falar sozinho. Construir esse mundo paralelo, sem nunca saber ao certo se é fantasia ou se é ele o verdadeiro mundo.
Sonhar lembrando sempre que o pensador antigo já ensinava que pela felicidade vale bem sacrificar a verdade.
Ah! Num dia assim, com um céu assim, um ar assim, falar de quê? Falar pra quê? Melhor sonhar.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br



