
A expectativa era de outra virada política histórica na Suécia, uma ocorrência contrastando, mais uma vez, com a imagem desse país da Escandinávia onde o desenvolvimento parece ter encontrado seu índice mais elevado, sugerindo não necessitarem os suecos de quaisquer mudanças. Mas as eleições parlamentares de 13 de setembro deste 2026 confirmaram o modelo social-democrático com a centro-esquerda conseguindo, porém, apenas mais 3 cadeiras no Parlamento que o bloco de centro-direita.
A continuidade surpreendente não afastou a lembrança de outro setembro, negro para a social-democracia sueca. Foi em 1991. Depois de governar desde 1932, os progressistas caíram fragorosamente. Perderam 18 cadeiras do Parlamento e a sua ideologia política.
Acompanhei lá esse choque político.
Cheguei a Estocolmo aos primeiros raios do sol de manhã de outono de 1991. Marly e eu passamos a noite entre Copenhague, na Dinamarca, e a capital sueca, num trem muito confortável, no qual nossa atenção se concentrou em notar que quase todos os demais passageiros tinham na bagagem de mão uma garrafa de bebida de aparência leitosa, a cachaça escandinava aquavit, destilado de cereais ou batata, de alto teor alcoólico. Muitos nem usavam copo, de tempos em tempos iam ao gargalo da garrafa. Um deles alternava os goles com a leitura de um grosso volume sobre administração, em inglês. Não me preocupei. Um colega, Francisco Teixeira da Costa Filho, o Xoxó, tinha estado nesta distante parte do mundo como esportista e comentado quanto os escandinavos bebem, mas não perturbam ninguém, a não ser com a imagem de bêbados dormindo nos bancos de praça.
O retrato mental era de encontro com ambiente onde a humanidade tinha dado certo. Ao lado da Dinamarca, da Finlândia e da Noruega, a Suécia compõe um espaço geopolítico onde tudo parecia pronto e ideal. O índice democrático era e continuaria o mais elevado do mundo, com baixo nível de desigualdade. Monarquia constitucional, o monarca só desenvolve funções de representação, ao lado da rainha ”brasileira”: mãe brasileira e pai alemão, Sílvia nasceu na Alemanha, mas viveu em São Paulo até os treze anos. Aparecia em cartazes e símbolos nacionais e se dizia nela existir um quê brasileiro, especialmente quando falava português ao invés de sueco, língua de difícil compreensão.
Além de Estocolmo, era intenção visitar Uppsala, cuja universidade foi a primeira da Escandinávia, fundada nos longínquos anos setecentos. E talvez a cidade de Solna, próxima da capital, em cujo estádio Rasunda, que seria demolido em 2013, a seleção brasileira aplicou 5 a 2 na equipe sueca em 1958 e se tornou pela primeira vez campeã do mundo. Feito extraordinário e mais histórico ainda porque estreavam Pelé, com apenas 17 anos, e Garrincha com os seus incontroláveis dribles.
Mas Estocolmo absorveria todo o tempo, já que a cidade, e a própria Suécia, enchiam o imaginário como um mundo de maravilhas, sem pedir retoques, tanto no seu físico quanto em suas instituições. E foi aí a surpresa, ao dimensionar o que as urnas tinham feito com o modelo político anterior no domingo, 15 de setembro de 1991, numa reviravolta da qual se chegou a esperar um segundo tempo aos 35 depois, em setembro de 2026.
Nos dias seguintes, nas ruas ainda se viam, esgarçados pela constante chuva miúda e fria, os restos de cartazes de propaganda eleitoral: um fantasma tentando arrochar o sueco já com o cinto apertado, em virtude das medidas escolhidas pelo governo para superar a crise econômica do país. E esse foi o centro do discurso que deu vitória à direita.
A virada revelou-se profunda, como pude observar pessoalmente. Embora nas ruas a vida parecesse continuar como sempre nesse país com meio ambiente limpo, virtualmente nenhuma pobreza, um desemprego mínimo e um impressionante time de fabricantes de expressão mundial, como a Volvo e a Eletrolux”, a imprensa local e internacional dava explicações para a derrocada eleitoral. Na edição imediata às eleições, o New York Times publicava artigo no qual Steven Prodkesch alinhava as excelências suecas e perguntava: “Então, por que tantos suecos estavam tão insatisfeitos ao votarem ontem?” Esclarecia a seguir: “Os suecos dizem que esses longos anos do governo social-democrata criaram um Estado ineficiente no processo de construir uma sociedade igualitária. O governo exerce um controle excessivo sobre suas vidas – reclamam eles – por forçá-los a pagar os mais altos impostos do mundo ocidental.” Concluía que o descontentamento transformou as eleições num referendo sobre a identidade da Suécia – a mistura de capitalismo e socialismo que, apesar dos problemas, deu aos então 8,6 milhões de suecos um dos mais altos padrões de vida do mundo.
Vencido o modelo social-democrata instalado havia mais de três décadas, no dia imediato o primeiro-ministro renunciou. Era o fim de um sonho, escreveu Éric Le Boucher no “Le Monde”. Apontou dois erros responsáveis por isso. O primeiro de ordem conjuntural. Em 1987, com a economia a pleno vapor, os salários subiram e o governo hesitou em segurá-los. O segundo, estrutural. Os patrões, em 1989, decidiram não negociar com o sindicato único e passaram a fazê-lo caso a caso. Resultado: caiu a competividade das empresas, muitas delas saíram do país, que amargou uma crise de custos. O governo lançou um plano de austeridade, um arrocho que iria influenciar as eleições de 1991. Repetindo o tema dos cartazes de rua, uma charge no principal jornal da capital mostrava o fantasma da reforma do governo ameaçando uma pessoa com cinto arrochado, e a mensagem de outro era a de que estava riscado o plano do sueco de possuir uma limusine.
Mas ao deixar o país mantive a percepção de as divergências internas não serem suficientes para desalojar os suecos da ponta da pirâmide do progresso humano. Isto seria confirmado nas décadas seguintes.
Ariosto da Silveira é jornalista e advogado



