Lula vira? (por Adriano Oliveira)

Onde estão as chances de Lula? [...]

Lula pode virar? Desde a redemocratização, em 1989, nenhum candidato que terminou o primeiro turno de uma eleição presidencial na segunda colocação conseguiu vencer o segundo turno. Fernando Collor, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro venceram suas respectivas eleições depois de liderarem a primeira etapa da disputa. Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, foi eleito diretamente no primeiro turno.

Os cientistas políticos George Avelino, Guilherme Russo e Jairo Pimentel desenvolveram modelos estatísticos que permitem estimar as probabilidades de vitória dos candidatos no segundo turno. Aplicados à atual disputa presidencial, esses modelos indicam dificuldades significativas para a reeleição de Lula. A essas contribuições acrescento a tese do cientista político Alberto Carlos Almeida, que destaca a importância da avaliação dos governos para a continuidade no poder. Governos bem avaliados tendem a conquistar a reeleição. Governos que não conseguem alcançar avaliações suficientemente favoráveis enfrentam maiores dificuldades eleitorais.

Onde estão as chances de Lula? A primeira oportunidade está nos debates. Lula é um político experiente, acostumado a disputas presidenciais e ao confronto direto com adversários. Flávio Bolsonaro, por sua vez, ainda precisa demonstrar sua capacidade de enfrentar um adversário com essa experiência. As pesquisas qualitativas realizadas pela Cenário Inteligência, por meio do Método Qualitativo SEP, permitem formular uma hipótese que venho apresentando há meses: esta é a eleição do medo. Vencerá aquele que conseguir fazer com que o eleitor tenha mais medo do adversário do que dele próprio.

Identifiquei também, nas pesquisas qualitativas, um mecanismo psicológico decisivo. Existe o eleitor que não deseja nem Lula nem Flávio Bolsonaro. Entretanto, como rejeita mais Lula, termina escolhendo Flávio. Existe também aquele que não deseja nenhum dos dois, mas, por rejeitar mais Flávio, decide votar em Lula. É nesse ambiente que Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno em posição favorável. Os apoios de Augusto Cury, Romeu Zema e Ronaldo Caiado ampliam suas possibilidades de conquistar eleitores.

Há, portanto, uma circunstância que não pode ser desprezada: o medo de Flávio Bolsonaro pode voltar a crescer. Recordo que, em pesquisas qualitativas realizadas anteriormente pela Cenário Inteligência, identifiquei um ambiente no qual o medo estava mais associado a Flávio Bolsonaro do que a Lula. Se esse sentimento voltar a predominar, Lula poderá recuperar competitividade e criar condições para vencer a eleição.

*Artigo originalmente publicado no O Povo

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Método Qualitativo SEP (Sentimento – Estratégia – Previsão) & Estratégia

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