Hoje, não; amanhã, talvez (por Elson Pimentel)

Cartola, quando cantava Autonomia, falava de amor. Ou de alguém que precisava resistir a um amor [...]

“Não vou, não quero”. Cartola, quando cantava Autonomia, falava de amor. Ou de alguém que precisava resistir a um amor. As duas negativas parecem dizer a mesma coisa, mas talvez não digam. A primeira fala da ação; a segunda, do desejo. E Cartola alonga o primeiro ‘não’ como se a decisão precisasse ganhar força antes mesmo de ser anunciada.

Há amores dos quais é preciso fugir justamente porque ainda nos atraem. A pessoa sabe que deve ir embora, mas alguma coisa continua puxando-a de volta. Quer e não quer.

Essa música me veio à memória durante uma conversa com um amigo em tratamento por dependência química e acabou guiando a escrita deste texto.

Meu amigo já me havia dito: “Hoje não quero usar droga; amanhã posso usar, não sei, mas hoje não”. À primeira vista, parece uma decisão frágil. Por que não dizer ‘nunca mais’? Talvez porque ‘nunca mais’ seja uma promessa grande demais para ser cumprida hoje.

Convidei-o a escrever, preferiu conversar. Aceitei a incumbência sabendo que sei pouco sobre dependência química. E que ele, sobre a sua, sabe muito mais. Restava-me escrever e, quando necessário, deixar-me corrigir.

Perguntei se naquele dia ele não sentia vontade ou se sentia e resistia. Sua resposta foi outra: “A minha prioridade é hoje; amanhã, não sei. Tenho que escolher qual monstrinho alimentar: o que quer ou o que não quer”.

Este texto, portanto, não foi escrito para um dependente, mas principalmente para nós, os outros — familiares e amigos que queremos ajudar, mas nem sempre sabemos como. Para começar, talvez precisemos aprender a escutar.

Os dois monstrinhos: vontade e necessidade

Eu havia entendido os dois monstrinhos como desejos concorrentes: o que quer usar a droga e o que não quer. Meu amigo fez uma correção. Para ele, são a vontade e a necessidade. Há a vontade de ter a droga e o prazer que ela proporciona; mas há também a necessidade de retomar a própria vida. “Se eu me entregar para o monstro da vontade, não mais vou ter a minha vida”.

Posso querer alguma coisa e, ao mesmo tempo, querer libertar-me daquilo que desejo. Não está em jogo apenas uma escolha, mas a vida que cada escolha ajuda a construir.

O psiquiatra George Ainslie, em Breakdown of Will (2001), mostrou que nossas preferências se invertem à medida que a recompensa se aproxima: o que ontem decidimos evitar pode tornar-se irresistível hoje. Ao ouvir meu amigo, reconheci ali algo familiar: regras pessoais e pré-compromissos podem proteger uma decisão contra essas mudanças de preferência. O ‘hoje, não; amanhã, talvez’ do meu amigo parece seguir essa lógica: não uma fraqueza da decisão, mas uma forma de defendê-la.

Perguntei se pensar apenas no hoje tornava as coisas mais fáceis. “Sim”, ele disse. E explicou: a escolha de hoje altera o ponto de partida da escolha seguinte — alimenta um monstrinho e enfraquece o outro. Por isso a repetição importa. Uma decisão provisória, renovada dia após dia, deixa de ser provisória; e uma transformação duradoura emerge da sucessão dos dias, não de nenhum deles isoladamente.

A velha piada ‘Fiado só amanhã’ retorna no ‘hoje, não; amanhã, talvez’. A diferença é que agora o amanhã chega.

Resistir

Resistir pode significar enfrentar uma força contrária, suportá-la enquanto continua atuando e sobreviver a ela. Os três sentidos aparecem na dependência.

Quando Cartola diz “Não vou, não quero”, ele parece sustentar uma decisão contra uma força que ainda existe. A analogia apenas mostra uma estrutura humana comum: às vezes precisamos dizer ‘não’ justamente àquilo para o qual uma parte de nós ainda gostaria de dizer ‘sim’.

Mas resistência não é sinônimo de força de vontade. Reduzir a dependência a querer ou não querer seria ignorar a complexidade que os dois monstrinhos procuram representar.

Uma ética da linguagem

Depois de nossa conversa, meu amigo me mandou algumas frases que pessoas próximas não deveriam dizer a quem está em recuperação.

“Você faz isso porque quer”. Mas qual querer? O que quer usar ou o que não quer? O monstrinho que grita mais alto ou aquele que vem sendo alimentado diariamente?

“É falta de vergonha na cara”. Aqui o conflito já não é apenas simplificado. Passa a ser julgado moralmente.

“Antes, você era melhor”. Os outros podem encarregar-se de puxar continuamente a pessoa de volta para ontem. Quem está tentando construir o dia seguinte não precisa ser permanentemente devolvido aos dias passados. Lembrar e acusar não são a mesma coisa.

“Basta ter força de vontade”. Não basta. A dependência exige tratamento e, de preferência, profissional. Nós, familiares e amigos, frequentemente chegamos munidos apenas de carinho, boa vontade e algumas teorias.

Perguntei então o que uma pessoa próxima poderia fazer que realmente ajudasse. A resposta me surpreendeu: “Melhorar a linguagem”.

Há frases que parecem apenas falar sobre uma pessoa, mas fazem alguma coisa com ela. Podem julgá-la, reduzi-la ao passado ou atribuir-lhe uma culpa.

Para ele, era preferível ouvir ‘dependente’ ou ‘adicto’ a ‘usuário’. Certas palavras podem ser experimentadas como pejorativas. E a antiga ideia de sujeição contida em ‘adicto’ nos devolve a Cartola. Meu amigo foi mais direto: “prefiro retomar a minha vida”.

William Miller e Stephen Rollnick, criadores da Entrevista Motivacional, propõem, em vez de sermões e confrontação, dar maior espaço à escuta, à autonomia da pessoa e às suas próprias razões para mudar. Não somos terapeutas. Podemos aprender a escutar antes de explicar.

Um suco no churrasco

Ele deu um exemplo: em um churrasco, alguém oferece uma cerveja. Em vez de simplesmente recusar, pede-se um suco. Há nessa pequena troca algo maior do que parece. Resistir pode significar construir outra resposta para a mesma situação. O churrasco continua sendo churrasco. A convivência continua. O copo continua na mão. O conteúdo mudou.

Ele falou em escolher ‘novas conexões’. Talvez a resistência dependa também disso: não apenas negar antigas escolhas, mas criar outras — hábitos, respostas, ambientes e relações.

Os outros

O conflito é dele. A resistência é dele. Não podemos resistir em seu lugar; cabe-nos apenas escutar, respeitar, evitar julgamentos, acompanhar.

Em Elson80 vs Elson90: o projeto, defendi que colaborar com o homem futuro exige explicitar aos mais próximos necessidades e conflitos para que saibam como ajudar.

Meu amigo faz agora esse mesmo gesto de resistência. Ao dizer ‘hoje não’, ao nomear os dois monstrinhos e ao pedir cuidado com as palavras, ele nos oferece o mapa de como acompanhá-lo. Ele reconstrói a sua vida através do tempo; nós aprendemos a caminhar ao seu lado nesse mesmo tempo.

Amanhã vai ser outro dia

‘Hoje, não; amanhã, talvez’. A frase não promete uma vitória eterna. Não elimina o desejo. Não transforma tratamento em força de vontade. Apenas estabelece a prioridade de hoje.

Amanhã haverá outra escolha, mas não necessariamente entre forças idênticas às de hoje. Aquilo que foi alimentado pode ter crescido. Aquilo que não foi pode ter enfraquecido. E amanhã, quando chegar, já vai ser outro dia e uma escolha renovada.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

Autor de Dilema do Prisioneiro: da Teoria dos Jogos à Ética

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