
Eu era um estranho no ninho dos cavaleiros. Não tinha cavalo, arreio, bota, sequer chapéu panamá, daqueles de mocinho em filme de faroeste. Na verdade, nem cavalgar sabia. Minha mais longa experiência sobre uma sela durara pouco mais de duas horas. Os amigos me aconselharam a não enfrentar os cento e cinquenta quilômetros do trajeto pela serra da Mantiqueira, subindo e descendo encostas, durante três dias, em lombo equino. Acharam que desistiria na primeira trotada, quando o traseiro percebesse a fria, ou melhor, o calor do atrito e o fogo na virilha. Confesso que tremi.
No entanto, precisava de subsídios para um romance – e parti para a aventura com equipamento emprestado. Parecia mais um Sancho Pança sobre um Rocinante do que um audacioso cowboy. E como tinha cowboy na cavalgada. Quase cem. A maioria com indumentária completa, importada, incluindo o lencinho no pescoço. Conservadores até o fundo da alma e do voto. Machões para ninguém botar defeito. A cada três palavras, cinco palavrões.
Eu buscava não apenas a paisagem da serra, mas sobretudo as mudanças que a rápida industrialização provocara numa zona eminentemente rural. Logo desconfiei de que a maior contribuição para minha história viria justamente dos cavaleiros, agentes e reagentes das transformações. Bastou observá-los um pouco, e uma obviedade me ocorreu.
O macho está em crise. Ele pavoneia mais e atua menos. Já não se relaciona abertamente com a mulher. Tem medo das conquistas femininas, do convívio prolongado, do corno, da própria fragilidade. Se antes se vangloriava do número de companheiras levadas para a cama, hoje alardeia o número de latas de cerveja ingeridas. Declara, sem receio, que homem, no fundo, gosta é de homem, quer dizer, só um amigo entende o outro. Confessa, na segurança de que o fenômeno é generalizado, as múltiplas broxadas. Projeta-se nas letras das músicas sertanejas, daí o sucesso das dores de cotovelo de muitas duplas. Afirma que, não fosse a flor-de-lótus que as mulheres trazem entre as pernas, ele nem as cumprimentaria. Reclama da esposa, da namorada, da amante. Elas viraram um fardo tolerado por um imperativo fisiológico. Trágica realidade.
Até que ponto minha impressão é verdadeira? Busco na memória comparações fora do círculo equinófilo. O comportamento pelo mundo se assemelha. Em Belo Horizonte, Nova York ou Bagdá.
Enquanto meu Rocinante sobe e desce as montanhas, homenageando com relinchos as éguas encontradas pelas trilhas, penso no romance e desisto de transformar os cavaleiros em personagens. Uma vez mais, apelarei para a fantasia ao narrar. A ficção é o spa da realidade, onde o fato perde o peso e o estresse da hora. Após alguma reflexão, sobra a humanidade nua e crua – e isso é o que interessa na literatura.
A cavalgada, antes de maltratar o corpo, doeu no coração. Ai de nós, os homens! Estamos presos em nós mesmos, arrotando virulências. Somos o sexo frágil, mas ainda resta uma esperança. Desde que as mulheres nos resgatem.
Luis Giffoni é Escritor e Membro da Academia Mineira de Letras



