Eleição Presidencial Brasileira 2026 (por VanDyck Silveira)

Quarta atualização: recalibrando o modelo de transferência com a série histórica de abstenção, branco e nulo das últimas 8 eleições presidenciais  [...]

Quarta atualização: recalibrando o modelo de transferência com a série histórica de abstenção, branco e nulo das últimas 8 eleições presidenciais

NOWCAST ESTRUTURAL, CENÁRIO CENTRAL (25 de setembro de 2026) Lula 50,1% x Flávio Bolsonaro 49,9% (agregado ponderado inalterado, nenhuma pesquisa nacional nova confirmada em 24/9) O que muda nesta atualização: o limiar de transferência de que Flávio precisa cai de 61% para a faixa de 56%-58% quando o modelo é recalibrado com a série histórica de abstenção, branco e nulo das últimas 8 eleições, em vez da premissa fixa de 12% usada nas versões anteriores.

Por que voltei ao modelo de transferência

 

Nas três atualizações anteriores usei uma premissa fixa: 12% do bloco de candidatos fora da polarização vira abstenção, voto em branco ou nulo no segundo turno, número que peguei do histórico de 2018 e 2022 de forma aproximada. É hora de fazer essa conta direito. Levantei a série completa de abstenção, branco e nulo das oito eleições presidenciais desde a redemocratização, os dois turnos onde houve segundo turno, e usei essa série para substituir a premissa fixa por uma calibrada em dados. O resultado muda o número que eu vinha publicando, e muda para um lado específico: o limiar de conversão que Flávio precisa cai, não sobe. Explico o porquê nesta atualização, passo a passo, para que qualquer pessoa possa reproduzir a conta.

Não apareceu pesquisa nacional nova registrada no TSE entre 24 de setembro, o pedido de atualização mais recente, e o fechamento deste documento. O agregado ponderado e a simulação de Monte Carlo permanecem exatamente como na atualização de 24/9, Lula 50,1% e Flávio 49,9% no agregado, probabilidade implícita de 54% para Flávio e 46% para Lula. O que muda aqui é inteiramente a arquitetura do modelo de transferência.

1. A série histórica completa: abstenção, branco e nulo, 1994 a 2022

 

 

Gráfico 1. Não-voto total (abstenção mais branco mais nulo) como percentual do eleitorado, primeiro e segundo turno, 1994 a 2022.

Dois padrões saltam aos olhos. Primeiro, o nível: o não-voto total girou historicamente entre 24% e 31% do eleitorado, sem tendência de alta ou baixa consistente, apesar do crescimento da abstenção isolada desde 2006. Segundo, e mais importante para este exercício: 2022, a eleição mais parecida com 2026 em polarização e protagonismo de Lula, teve o MENOR não-voto total da série inteira, tanto no primeiro quanto no segundo turno, cerca de 24,2% a 24,4%. O próprio TSE, pela voz do ministro Alexandre de Moraes, atribuiu isso à natureza acirrada e polarizada da disputa: quando o eleitor sente que o voto pesa, ele vota menos em branco ou nulo.

2. O que a série ensina sobre a transição do 1º para o 2º turno

 

A pergunta que interessa ao modelo de transferência não é o nível do não-voto, é a variação dele entre os dois turnos. Se o não-voto total cresce muito do primeiro para o segundo turno, isso sinaliza que uma fatia relevante de quem votou em candidatos eliminados, ou estava indeciso, prefere não escolher entre os dois finalistas. Se o

não-voto total fica estável ou cai, sinaliza o oposto: a polarização do confronto direto empurra o eleitorado para escolher um lado, mesmo que a contragosto.

Gráfico 2. Variação do não-voto total entre o primeiro e o segundo turno, as seis eleições que tiveram segundo turno.

O resultado é claro: em quatro das seis eleições (2002, 2006, 2014 e 2022), o não-voto total CAIU do primeiro para o segundo turno. Só 2010 e, principalmente, 2018 tiveram alta, e 2018 é um outlier extremo, mais que o dobro de qualquer outra variação da série, provavelmente refletindo o desconforto de parte do eleitorado com os dois finalistas daquele ano. A média das seis eleições é de apenas mais 0,24 ponto percentual, estatisticamente indistinguível de zero. A mediana é negativa, menos 0,16 ponto. Isso quer dizer que a premissa mais realista, na ausência de outra informação, não é que o segundo turno produz mais fuga para o não-voto. É que ele tende a produzir mais ou menos a mesma coisa, com viés levemente para baixo.

3. Recalibrando o modelo de transferência de 2026

  

O modelo anterior aplicava uma evasão fixa de 12% sobre um bloco definido apenas pelos quatro candidatos menores (Cury, Caiado, Renan e Zema, 15 pontos percentuais na base Nexus/BTG de 21/9). Isso deixava de fora, sem justificativa, os indecisos do primeiro turno (8 pontos percentuais na mesma pesquisa), que são exatamente o grupo cuja migração para o voto válido, o branco, o nulo ou a abstenção a série histórica mede. O modelo recalibrado junta os dois: um pool realocável de 23 pontos percentuais, candidatos menores mais indecisos, e aplica a esse pool inteiro a taxa de evasão observada historicamente, em vez de uma taxa arbitrária aplicada a um pool arbitrariamente menor.

Rodei três cenários de evasão sobre esse pool de 23 pontos: o cenário 2022, o mais análogo à disputa atual, com evasão negativa de 0,8%, a média histórica das seis eleições, com evasão de 1,0%, e o cenário 2018, o pior caso histórico, com evasão de 15,4%. Mantenho a mesma retenção de 97% para as bases já consolidadas de Lula e Flávio em todos os cenários, coerente com a fidelidade de voto reportada pelos próprios institutos.

Gráfico 3. Limiar de transferência exigido de Flávio, modelo anterior versus os três cenários recalibrados pela série histórica.

O resultado é uma faixa estreita e mais favorável a Flávio do que eu vinha publicando: 56,3% no cenário 2022, 56,4% na média histórica, e 57,5% no pior cenário histórico, 2018. Contra os 61% do modelo anterior. A diferença não vem de nenhuma mudança na disputa Lula-Flávio em si, vem inteiramente de corrigir um erro de especificação: tratar os indecisos como parte do pool que se realoca, não como uma categoria à parte que o modelo ignorava.

Reconheço o erro da versão anterior e o corrijo aqui, com a conta aberta para quem quiser conferir.

4. Rejeição: atualização com os seis principais nomes

  

A Quaest, na rodada de 10 a 13 de setembro, testou rejeição para os seis nomes principais, um retrato mais completo do que a dupla Lula-Flávio que eu vinha usando. Lula e Flávio empatam em 55% de rejeição cada, o maior nível entre os seis e tecnicamente idêntico entre os dois, o que reforça o argumento dos relatórios anteriores: os dois líderes operam perto do teto de suas coalizões. Caiado e Zema formam um segundo patamar, 42% e 40%. Renan Santos, mesmo depois de sua ação pública contra Flávio no TSE, tem rejeição de 30%, abaixo da de Caiado e Zema. Cury segue com a menor rejeição da corrida, 26%, e o maior teto teórico de crescimento, 74%.

Gráfico 4. Rejeição declarada e teto teórico, seis candidatos, Quaest 10-13/set/2026.

Um detalhe que vale registrar: a rejeição de Lula e Flávio subiu para 55% nesta rodada da Quaest, ante 49% e 50% que o Nexus/BTG media em 4-7/set. Isso é coerente com o desgaste mútuo da crise do STF e do caso Vorcaro discutidos nas atualizações anteriores, embora a diferença também possa refletir metodologia de campo diferente entre os dois institutos, e não deva ser lida como uma tendência confirmada sem mais um ponto de dado do mesmo instituto.

5. Simulação de Monte Carlo: sem alteração

 

Sem pesquisa nacional nova confirmada em 24 de setembro, a simulação de Monte Carlo permanece a da atualização anterior: margem ponderada de mais 0,25 ponto a favor de Flávio, desvio padrão combinado de 2,2 pontos, probabilidade implícita de vitória de 54% para Flávio e 46% para Lula. A recalibração do modelo de transferência apresentada nesta atualização não altera essa simulação, que é construída diretamente a partir das pesquisas de segundo turno, não do modelo de transferência do primeiro turno. São dois exercícios complementares, não um alimentando o outro.

Gráfico 5. Simulação Monte Carlo, inalterada desde 24/9, reproduzida aqui para referência.

6. Conclusão

  

Corrigir a especificação do modelo de transferência com a série histórica de abstenção, branco e nulo das últimas oito eleições presidenciais muda um número central deste exercício: o limiar de conversão que Flávio precisa do eleitorado hoje fora do eixo Lula-Flávio cai de 61% para uma faixa de 56% a 58%, dependendo do cenário histórico usado como referência. A causa não é nenhum evento novo na campanha, é a correção de um erro de especificação nas três versões anteriores deste modelo, que deixavam os indecisos do primeiro turno fora do pool realocável sem justificativa. A série histórica também ensina algo mais amplo sobre a eleição de 2026: o precedente mais próximo em polarização e protagonismo, 2022, teve o menor não-voto total da redemocratização, o que é evidência indireta de que 2026, uma disputa igualmente polarizada e com Lula novamente como um dos protagonistas, deve produzir um eleitorado mais decidido, não mais evasivo, entre os dois turnos.

Nota metodológica: os dados de abstenção, branco e nulo de 2002 a 2022 vêm de totalizações oficiais do TSE ou de agências de notícias que as reproduziram diretamente. Os de 1994 e 1998 têm precisão menor, documentada no texto, e uso apenas a abstenção desses dois anos, não a decomposição entre branco e nulo. Toda taxa de evasão aplicada ao pool realocável de 2026 é uma construção analítica calibrada pela série histórica, explicitada passo a passo neste texto, não um dado coletado diretamente sobre a eleição atual.

VanDyck Silveira, Ph.D
Diretor de Estratégia e Expansão Global da UCAM
Comentarista de Economia e Política na BM&C News

Fontes

 

Tribunal Superior Eleitoral, totalizações oficiais do 1º turno de 2018 e 2022. Gazeta do Povo, Abstenção no 2º turno da eleição presidencial é de 20,6%, 31/10/2022. Agência Brasil, Taxa de abstenção na eleição presidencial é a maior desde 1998, 29/10/2018. Confederação Nacional de Municípios, Brancos, nulos e ausentes somaram quase 30% nestas eleições. O Povo, Eleições 2022: percentual de abstenções no primeiro turno é o maior desde 1998, 3/10/2022. Poder360, Abstenção em 2022 vai a 20,95% e supera 2018, 18/10/2022. Gazeta do Povo, Veja os números da nova pesquisa Quaest para presidente, 14/9/2026 (dados de rejeição). Demais fontes de pesquisas de intenção de voto conforme relatórios anteriores desta série. Dados verificados em 25 de setembro de 2026.

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