Elson80 vs Elson90: o projeto (por Elson Pimentel)

Há pouco tempo, ao escrever ‘E se o futuro for o próximo capítulo...’, em que refletia sobre a [...]

Há pouco tempo, ao escrever ‘E se o futuro for o próximo capítulo…’, em que refletia sobre a vida de uma pessoa próxima antes e depois de ter sofrido um AVC grave, terminei com uma pergunta: quem teria autoridade sobre quem? Desde então desejava investigar um terreno mais próximo e com maior intimidade.

Tenho 80 anos. Posso imaginar o homem que serei aos 90. Para facilitar, e correndo algum risco de narcisismo, vou chamá-los de Elson80 e Elson90.

Um homem que ainda não existe

Elson80 conhece razoavelmente bem a si mesmo. Conhece sua história, seus valores, suas preferências, aquilo de que gosta e aquilo que teme. Pode dizer hoje em que condições gostaria de continuar vivendo e quais situações imagina que tornariam sua vida indesejável.

Sobre Elson90, entretanto, ele tem apenas uma teoria com um certo lastro. Ele conhece sua história familiar, observa pessoas mais velhas, conversa com elas, acompanha as transformações produzidas pela idade. Convive, inclusive, com irmãos que já chegaram aos 90 e continuam vivendo suas próprias histórias.

Esses pensamentos recomendam cautela: noventa anos não são o fim da vida. Ao chegar lá, haverá ainda um presente, uma experiência e a expectativa de futuro. Hoje há uma limitação ainda mais elementar: Elson80 nunca teve 90 anos.

Pode imaginar Elson90, pode até falar por ele, mas não pode ouvi-lo. Elson90, ao contrário, terá conhecido Elson80 — embora talvez já não disponha das mesmas condições para rever algumas decisões que aquele homem tomou.

Quanto poder deve ter o homem que sou hoje sobre o homem que ainda não me tornei?

Uma teoria não basta

Essa teoria singela não concorre com os inúmeros conselhos sobre como viver a velhice: experiências exemplares, virtudes, promessas de longevidade plena. Tudo isso pode ter valor. Mas a questão que me interessa agora é de outra natureza: o que posso fazer hoje, concretamente, por esse homem que ainda não existe?

Cooperar através do tempo

Em artigos sobre Projetos de Vida, descrevi cada pessoa como uma coalizão de ‘eus’ temporais. A pergunta era: como fazer o eu presente e o futuro se relacionarem? Aos 80, ela reaparece em outras circunstâncias.

Concretamente, Elson80 pode escolher cooperar com Elson90 de pelo menos quatro maneiras: cuidar da saúde, preservar relações, organizar recursos e deixar indicações sobre aquilo que considera importante.

Mas há uma dificuldade. O eu futuro não é apenas o destinatário de nossas decisões. Quando finalmente chega ao presente, encontra circunstâncias, necessidades e até valores que não puderam ser antecipados. Isso exige cuidar dele sem pretender governá-lo inteiramente. Projetar condições, não destinos. Ele não precisa deixar uma missão para Elson90.

O autor envelhece dentro da obra

Ao discutir decisões sobre o fim da vida, Ronald Dworkin (Domínio da vida, 1993) distingue interesses ligados às experiências que temos em determinado momento de interesses mais profundos sobre a maneira como desejamos que nossa vida, considerada como um todo, seja conduzida.

A distinção ajuda a compreender por que uma decisão tomada quando temos plena capacidade pode continuar valendo quando essa capacidade diminui. Autonomia significa, em certa medida, ser autor da forma da própria vida.

Mas o autor também envelhece dentro da obra. Agnieszka Jaworska (Respecting the Margins of Agency …, 1999) acrescenta uma dificuldade: perder determinadas capacidades cognitivas não significa necessariamente deixar de valorar pessoas, vínculos afetivos ou acontecimentos.

Elson90 talvez não disponha dos meios que o autor consideraria necessários para revisar o projeto. Isso não significa que tenha deixado de ter algo a dizer sobre ele. Que autoridade deve ter, então, o julgamento de agora diante daquilo que ele, mais velho, ainda for capaz de querer, valorizar ou manifestar?

E o observador também está mudando

Enquanto imagina as transformações do homem que será aos 90, Elson80 também continua envelhecendo. O observador também muda.

Essas mudanças podem ser pequenas e graduais, umas percebidas por ele, outras primeiro por quem convive com ele.

Surgem os outros

Essas pessoas ao seu redor, que daqui a dez anos também já não serão exatamente as mesmas, poderão perceber transformações que ele próprio não percebe, cuidar dele, interpretar suas preferências e até participar de decisões sobre sua vida.

Há ainda uma dimensão mais difícil de medir e que aprendi ao escrever ‘E se o futuro for o próximo capítulo…’: o valor simbólico que a simples presença de Elson90 poderá ter para os outros.

Mesmo que um dia fale menos, participe menos ou dependa mais de cuidados, continuará carregando uma história compartilhada. Sua presença poderá organizar memórias, afetos e relações.

Isso não dá aos outros o direito de decidir que sua presença deve ser preservada a qualquer preço. Mas também não permitiria imaginá-lo como proprietário solitário de uma vida sem relações.

Talvez ele seja autor da sua própria vida, mas nunca seu autor único. A cooperação imaginada, portanto, não será apenas entre dois participantes.

Algumas alternativas possíveis

Num primeiro cenário, aos 90 continua capaz de decidir e discordar do que pensava aos 80. Talvez isso não represente o fracasso do projeto, mas a prova de que ele não se transformou em prisão. Sua autonomia e seu direito de mudar de ideia estariam preservados.

Num segundo cenário, sofre perdas cognitivas importantes, mas ainda reconhece pessoas, espera visitas, gosta de determinadas atividades. Sua capacidade de formular uma concepção abstrata da própria vida diminuiu, mas alguma capacidade de valorar permanece. Nesse caso, quem deve falar mais alto: Elson80, que formulou uma concepção de sua vida como um todo, ou Elson90, que está efetivamente vivendo aquela vida?

Num terceiro, já não consegue manifestar interesses, valores ou escolhas. As decisões tomadas aos 80 ganham então maior força. Mas cresce também o papel dos outros, que terão de interpretá-las diante de circunstâncias que ninguém antecipou completamente.

A cooperação através do tempo passou a envolver vários participantes.

Apesar das incertezas, a vida

Talvez seja isso que o envelhecimento acrescente ao problema dos projetos de vida. Aos 80, posso continuar pensando o futuro, mas o homem para quem planejo não é inteiramente conhecido por mim. Aos 90, ele estará diante de circunstâncias que jamais antecipei. Mas, se viver, viverá.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

Autor de Dilema do Prisioneiro: da Teoria dos Jogos à Ética

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