Canibais da notícia (por Luís Giffoni)

Não tiveram filhos, aposentaram-se cedo no serviço público, planejaram ficar de papo para o ar até o [...]

Não tiveram filhos, aposentaram-se cedo no serviço público, planejaram ficar de papo para o ar até o último dos dias, em vingança contra os anos de ditadura do relógio. Para preencher as longas manhãs, liam jornais. A princípio, apenas os da cidade. Como a leitura não durava até o almoço, começaram a comprar todos os que a banca da esquina vendia. Insatisfeitos, passaram a assinar diários de capitais distantes, do Brasil e do exterior, puseram-se a par de assassinatos na periferia de Macapá ou das infindáveis animosidades entre árabes e judeus. De vez em quando, ele levantava os olhos acima das lentes para comentar:

– Os mortos de Bangladesh passam de dois mil…

– Dois mil e vinte e oito, querido – ela corrigia, com a exatidão de quem chefiara uma seção de estatísticas oficiais.

– Tem jornal dizendo que chegam a três mil ou mais! – ele se defendia.

Seguia-se uma hora de silêncio, trespassada apenas pelo ruído das páginas que folheavam ou dos cadernos atirados ao chão da varanda onde o sol os aquecia.

– Mataram mais de trinta neste fim de semana em São Paulo…

– Trinta e dois, querido.

– Te peguei! Foram trinta e quatro. O levantamento deste jornal é das nove da noite, e você ainda não o leu. Mais dois morreram no hospital.

Durante o almoço, um sentimento de vazio os atingia. Era como se cortassem o cordão umbilical com a realidade, quais astronautas cuja ligação com a nave se rompesse, um pesadelo contornado pela televisão. Comiam depressa, a fim de logo se postar defronte à tela.

– Ótimas essas imagens da queda do Boeing…

– Preferi as do terremoto. Tinham muito mais destruição. Aquele menininho chorando ao lado da mãe esmagada então…

Faziam a sesta, dando um tempinho ao mundo para acontecer e chegar até eles. A empregada os acordava às três em ponto, bem na hora do noticiário na tevê a cabo.

– Não mudou nada desde o almoço.

– Teve o ataque dos terroristas.

– Mas não morreu ninguém.

– Mas quase vinte ficaram feridos.

– Dezenove, querido.

Naquela noite, veio a enchente, verdadeira tromba-d’água. A casa ficou inundada, paredes e muros ruíram, carros saíram flutuando pela rua. Os aposentados viveram momentos de medo. Perderam até a televisão. Só melhoraram quando a repórter os entrevistou. Entusiasmado com a perspectiva de virar notícia, ele sugeriu-lhe:

– Vai naquele prédio ali, moça, que você vai fazer uma tomada e tanto. Tem mais de uma dúzia de carros empilhados lá.

– São treze, querido. Contei enquanto éramos resgatados.

Ao saber que iriam ao ar dali a uma hora, pediram a um vizinho mais afortunado permissão para ver as imagens. Sentiram-se realizados.

– Você ficou bem, amor.

– Você também, querido.

– Será que estamos no mundo inteiro?

– Tomara. Vamos procurar?

Esquecidos de que não se encontravam em casa, passaram a noite em busca de si mesmos numa centena de canais. Desculpe, cento e doze.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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