
Há quatro bilhões e meio de anos, surgiu o planeta. Há trezentos mil, o sapiens, que, noventa por cento desse tempo, vagou nômade por aí. Há dez mil anos, no neolítico, surgiram a agricultura e a domesticação de animais. Com isso, a turma quietou um pouco. Vilas foram construídas, as primeiras casas edificadas. Ainda sem portas. Para um dedo de prosa, era só entrar.
Alguns milênios depois, o início da clausura. Sabe-se lá onde, as casas passaram a ter portas e fechaduras.
Há pouco tempo, 1831, Joseph Henry inventou a campainha. Na minha infância, havia duas. O blim-blom solene da sala de visitas e barulhento “peeen” da cozinha. Ambas obsoletas. No Edifício Gil Pacheco, os hábitos eram neolíticos.
De volta à linha do tempo, já no meu calendário, aos doze conheci o bipe, uma caixinha laranja que meu pai carregava na cintura. Aos dezenove, criei a primeira conta no Hotmail. Aos vinte, o primo Wolmarzinho me apresentou o telefone celular do pai dele. Fiquei maravilhado com o tijolão da Motorola. Aos vinte e um, eu já mandava mensagem de texto (10 torpedos Tim por R$2,99), aos trinta e um, o primeiro Smartphone, até que, aos trinta e três, tchan-tchan-tchan-tchan: o WhatsApp!
A retrospectiva revela alguns aspectos interessantes.
O primeiro é que a humanidade passou a maior parte da sua existência sem barreiras de contato. Se as portas, fechaduras e campainhas interromperam esse cenário, paradoxalmente, a evolução tecnológica, à sua maneira, retomou a lógica anterior. Hoje, sem aviso prévio, somos acessados pelo celular diretamente na cama, de pijama no café da manhã e até assentados no trono.
Também chama atenção a velocidade das mudanças. Se eram necessários séculos, até milênios para uma melhor adequação, um ser humano dos nossos tempos acompanhará, em vida, mais alterações que gerações passadas inteiras. O resultado dessa salada é que não há tempo de adaptação e a sociedade se enrola para definir certos códigos.
Para a nossa magna obra, o Zapzap, cada qual um age de um jeito.
Outro dia, um contato redigiu: “bom dia”. Fiquei esperando a continuação, que não veio. Pensei ter sido um engano e não respondi. Alguns dias depois, ele me interpelou: “você já foi mais educado”. Áudios intermináveis, chamadas de vídeo fora de hora e outras aleatoriedades.
Diante disso, para o bem geral da nação e pacificação dos povos, declaro solenemente dez regras básicas para a utilização do WhatsApp:
1 – Ao escrever “bom dia”, não encerre a conversa esperando o bom dia do outro lado. Complemente o que quer dizer. Exemplo: – Bom dia, você pode me enviar a guia de pagamento? Do contrário, não dê bom dia, muito menos em grupos.
2 – Não faça chamadas de vídeo, sem avisar, com contatos com quem você não tenha intimidade. Você corre o risco de o interlocutor não estar familiarizado com a ferramenta e se apresentar nu.
3 – Não traga temas inadequados ao tópico do grupo. O link do Instagram pedindo voto para o filho da sua prima como melhor jogador do quarto ano não combina com o seu grupo de trabalho.
4 – Sem atropelos. Quando o telefone indicar que o interlocutor está gravando áudio ou escrevendo uma mensagem, espere a finalização para enviar a sua.
5 – Não envie áudios acima de dois minutos, muito menos em grupos. Não escreva textões. O silêncio dos demais não é falta de educação, mas uma nota de repúdio.
6 – De uma a cinco fotos da sua viagem são aceitáveis. De cinco a dez é exagero. Mais de dez, por dias seguidos, não serão abertas e conversas paralelas surgirão com memes sobre sua falta de noção.
7 – Não discuta política no grupo da família. Não morda a isca do primo ativista. Você não vai mudar a opinião dele, ficará de cabeça quente e ainda sairá tachado de comunista ou fascista.
8 – Atenção a certas figurinhas e GIFs. O ano é 2026 e, mesmo que refute o politicamente correto, há certos limites civilizatórios básicos a serem observados.
9 – Não compartilhe áudios de terceiros sem autorização. Como essa regra jamais será respeitada, passemos para a regra 9.1: Não envie áudios de temas sensíveis. Quanto maior a fofoca, maior a chance de seu áudio circular.
10 – Tenha em mente que, de todos, o grupo mais propício à confusão é o condomínio. Como se diz, Deus inventou o WhatsApp e o Diabo, o Grupo de WhatsApp. O Grupo do Condomínio nenhum dos dois assumiu a autoria.
Renato Perim é Advogado



