
O autoritarismo avança pela geopolítica com a desenvoltura de quem encontrou as portas abertas. No mundo atual, moldado por impulsos nacionalistas e pela erosão dos consensos democráticos, resistir a essa onda virou quase um passatempo em extinção. Essa constatação ganha relevo quando olhamos para a trajetória recente dos Estados Unidos, tema central de uma reflexão publicada pelo The New York Times em 10 de setembro de 2026, de autoria do jornalista Radley Balko, criador de Rise of the Warrior Cop. Partindo das ideias centrais desse texto, percebe-se como o terrorismo acabou alcançando uma vitória profunda sobre as liberdades públicas no Ocidente.
O marco dessa guinada foi o 11 de setembro de 2001. A tragédia abriu caminho para a aprovação a toque de caixa do Patriot Act pelo Congresso americano, semanas após o ataque. A lei deu poderes inéditos ao governo federal para fazer buscas secretas, monitorar cidadãos sem mandado, deter estrangeiros por tempo indeterminado sem julgamento e recolher dados digitais em massa. O que foi vendido como um remédio amargo e excepcional contra o terror logo virou rotina para fins bem mais prosaicos: agências federais passaram a usar as novas ferramentas para investigar crimes comuns e vigiar ativistas ou manifestantes, enquanto sucessivos governos ampliavam execuções extrajudiciais e blindavam agentes públicos.
Nesse processo, Osama bin Laden conseguiu algo que Karl Marx e Vladimir Lenin jamais lograram: desestruturar as entranhas do capitalismo liberal e do Estado de Direito ocidental não por meio de uma revolução proletária internacional, mas fazendo com que o próprio inimigo capitalista destruísse suas garantias fundamentais por vontade própria. Bastou um único golpe espetacular para que as democracias liberais implodissem suas próprias liberdades econômicas, de circulação e de privacidade em nome da segurança.
Existe uma lógica perigosa na delegação de prerrogativas excepcionais: uma vez com as ferramentas na mão, quem ocupa o poder desenvolve um apetite voraz por usá-las. Afinal, para que perder tempo com o devido processo legal se se pode invocar a segurança nacional, a soberania ou a defesa da pátria para atropelar o contraditório? Isso vale para qualquer canto da estrutura de Estado, seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário.
O paradoxo apontado por Balko é que, ao adotar táticas de coerção em nome da segurança, as democracias abrem mão de suas bases. O que começa como emergência institucionaliza-se num piscar de olhos. É curioso notar como a sociedade nutre uma desconfiança crônica em relação às burocracias, mas, em um surto de pragmatismo ingênuo, entrega o volante a líderes de pulso firme na esperança de que resolvam tudo à base de decreto. Sob o argumento constante de ameaças, extremismos ou subversões, governantes justificam o endurecimento das leis. Convence-se o público de que cortar direitos alheios é o preço módico pela própria tranquilidade — até que a patrulha bata à porta de quem aplaudia a medida.
Esse manual não é exclusividade de uma única bandeira. Nos Estados Unidos, a Casa Branca testa os limites executivos sob o manto da emergência permanente. No Brasil, gabinetes de cúpula acumulam superpoderes investigativos e punitivos sob o nobre pretexto de blindar as instituições democráticas contra inimigos internos, criando um ecossistema no qual o próprio tribunal investiga, acusa e julga, flertando perigosamente com os métodos que diz combater. Enquanto isso, potências como a Rússia e a China elevam rótulos como “extremista” a sinônimos elegantes para qualquer cidadão que ouse discordar da linha oficial. Na Hungria e em outras democracias iliberais, o roteiro se repete: o governante de plantão usa a exceção para amordaçar a imprensa, enfraquecer o parlamento e neutralizar rivais.
O triunfo póstumo do terrorismo e da paranoia estatal reside exatamente nessa conversão sutil: o medo funciona como o lubrificante perfeito para desmantelar instituições livres por dentro. No cenário internacional de hoje, fascinado pelo culto a salvadores da pátria de todas as matizes, preservar o Estado de Direito exige um esforço titânico. Como sugere a reflexão inspirada em Radley Balko, a maior ameaça à democracia nunca foi a liberdade alheia, mas sim a nossa comovente e silenciosa disposição para aplaudir quem promete nos proteger de nós mesmos.
Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado




