O horror (por Lindolfo Paoliello)

De repente, o assustador barulho de um tronco que desaba, [...]

O monstrengo deixou-se aparecer entre os galhos e folhas que resistem ainda na mata. Vai-se arrastando a fera, liquidando aos berros o bosque, ao lado da minha casa, que comprei há quase 30 anos para preserva-lo.

Agora vivo a sensação, mil vezes ampliada, de quem vê sendo desfolhada uma planta em flor. Do nada, toma forma a figura sinistra de um trator, coadjuvado pelo ronco voraz de uma serra elétrica. De repente, o assustador barulho de um tronco que desaba, resvalando entre os galhos e uma tempestade de folhas.

No entanto, a tortura prossegue e segue um método. Para o trator e silencia a serra. No ar, a expectativa irritante de que o horror voltará a atacar. Por um instante é um episódio da infância que ressurge, como que saindo da escuridão da mata: a dor da injeção que assombrava a criança, mas agia rápido. Cruel era o ato de arrancar o esparadrapo, este sim, era a tortura de dois ou três puxões malévolos. Doloso? Nem tanto. Concentre-se comigo no que estou sentindo agora e assista a um assassinato às claras. Aqui, aos puxões de uma corda que assegura a direção da queda e a um ronco forte do motor, a serra aplica o golpe de misericórdia no tronco da sibipiruna, arre! Este doeu.

De tudo, fica a lembrança do bosque preservado por três décadas e a aceitação de que a cidade grande está chegando.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br

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