
Encontrei-me com Julia, num restaurante da Savassi, para tomar uma taça de vinho. Seu telefonema e convite foi uma agradável surpresa, de uma amiga que se mudara para a Itália, depois de termos iniciado um namoro interrompido pela sua viagem. Queria me rever, depois de alguns anos, contar de sua vida e saber da minha, agora que estava de volta, definitivamente. A lembrança do passado, nosso flerte interrompido, as boas marcas que ficaram, a recordação de beijos e promessas, eram motivos bastantes para nos rever. Quando se foi estudava Arquitetura, disputou e ganhou uma bolsa para cursar, em Florença, a graduação no Instituto Florença, por 3 anos. Moça bonita, morena de sorriso lindo, inteligente, cheia de projetos, foi na busca de seu caminho, com o estímulo da família e amigos. Lembro-me bem de incentivá-la a descobrir novos horizontes e perspectivas profissionais. E assim se passaram não três anos, mas vinte e dois. Além do curso, do trabalho numa empresa de design, ela se casou com um florentino, teve um filho, hoje um rapaz de 19 anos, separou-se e resolveu voltar sozinha para o Brasil. Pietro, seu filho, ficou com o pai, renomado projetista de móveis. Foi assim que ela começou a contar sua história, assentados frente a frente, meus olhos nos seus olhos lindos, brilhantes, revelando sua alegria de voltar e reencontrar sua cidade, família, ambiente e velhos amigos. Sua experiência foi um período rico para ficar no passado, segundo suas palavras. “Se o passado te ligar, não atenda, ele não vai te relevar nada de novo”, expressão dela.
O vinho, não poderia ser outro, um toscano de boa cepa e ano, Brunello di Montalcino, Mocali, mais que saboroso, buquê perfeito, digno dos Príncipes da casa Medici, com um brinde ao passado, à vida e especialmente à sua volta. Julia estava radiante, bela na sua meia idade, madura, enxergando o futuro com ótimas perspectivas profissionais e emocionais. Fez questão de relembrar nosso encontro do passado, guardado na memória com carinho, da importância dele nos seus primeiros anos de distância e saudades. Foi muito bom ouvi-la, dar espaço para suas histórias, sua vida conjugal, realizações profissionais e separação provocada pela incompatibilidade de gênios e traição, por parte dele, segundo ela, com uma funcionária da empresa. Quis saber de minha vida, contei-lhe boas experiências profissionais e sentimentais, histórias comuns, vida de casado, filhos criados, anos passados, cabelos brancos, ainda ativo no trabalho e zeloso cuidador de minhas memórias.
– Inclusive de nosso passado? Perguntou.
– Guardado com o mesmo carinho, de tudo que foi nosso e que existiu, lembranças de nossos projetos, curiosidade de como teria sido nossas vidas, se você não tivesse ido. Mas, como você disse, o passado não pode ser o guia de nossas vidas. Temos que olhar o futuro como um desafio de cada dia.
O vinho, quase no final, já nos fazia mais leves, relaxados, espíritos abertos e corações enternecidos. Seus olhos tinham um pouco de muitas coisas, seu sorriso demonstrava alegria e carências, seus gestos cada vez mais emocionados.
– Hora de ir embora, pensei.
Levei-a em casa, no Belvedere, e nos despedimos na porta do elevador.
Ela abraçou-me, deu me um beijo na boca e disse:
– Non ti dimenticheró mai, o mio babbino caro.
Peguei o taxi e pedi ao motorista:
– Leve-me para o bar “Mina”, preciso de mais vinho e música.
Puccini de preferência.
Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor



