Riscos da eternidade (por Luís Giffoni)

Temo a eternidade. A eternidade é o inferno. Em vez do encerramento puro e simples da vida no [...]

Temo a eternidade. A eternidade é o inferno. Em vez do encerramento puro e simples da vida no aconchego de uma cova, estremeço ante a hipótese de, dotado de plena consciência, suportar o martírio do tempo infinito. Em vez de devolver à terra o que dela tirei, morro de medo da prisão mental de um dia após o outro, sem qualquer perspectiva de mudança. Na eternidade, séculos, milênios, trilhões de anos passarão sem que o futuro encurte. A espécie humana desaparecerá, o Sol explodirá, os átomos se espalharão pelo espaço, a matéria não mais interagirá, o universo evaporará, porém os condenados a viver para sempre permanecerão. Existe pesadelo maior?

Como nos ocuparemos na eternidade? No início, tudo será saboroso. Reencontros, novas amizades, conversas sem rumo e sem hora para terminar, a música suave das harpas, das trombetas e dos coros angelicais, a leveza de espírito, a ausência de contas para pagar, o fim das injustiças, a paz merecida. Conhecerei pessoalmente Dante, Montaigne, Shakespeare, Machado de Assis, Borges, Rosa. Mais cedo ou mais tarde, acabarei aprendendo música com Bach. Após longa espera, Einstein, embora enfadado com o número de consulentes, tentará acalmar-me com elucubrações sobre a elasticidade do tempo, mostrando que, quando a gravidade é enorme, a eternidade passa num átimo. Pena que a gravidade do além seja diferente da einsteiniana. De volta à estaca zero, o tempo continuará intransponível. Quem entrou não sai.

Esgotadas as conversas, dedicarei séculos sem fim às cascatas de mel, concertos de canto gregoriano, banquetes divinos, vinhos celestiais, colchões de nuvens. Férias para eleito algum criticar.

Convenhamos, ninguém suporta tanto prazer junto. Um dia, todos começarão a sentir falta de problemas, alguns se estranharão, brigas surgirão. Até que ponto a eternidade abrandará nossos instintos belicosos?

Para escapar ao perigo e ao tédio, inventaremos tarefas demoradas, como a contagem dos grãos de areia do mundo. Milênios mais tarde, cada um de nós chegará a um total diferente. Quem será o dono da verdade? Para contornar o impasse e gastar o tempo infinito restante, todos nos lançaremos a um objetivo mais ousado: medir o perímetro da Via Láctea com um palito de fósforo.

Pronto o levantamento, procuraremos o número exato de átomos no universo. Einstein rirá da iniciativa, mas – que fazer? – é preciso gastar o tempo. A eternidade ainda nem foi arranhada.

Um zilhão de anos mais tarde, eliminados os empecilhos, o censo atômico de alguma forma ficará concluído. Cada eleito olhará na cara do outro, com idêntico pavor: e agora? Ainda restará o infinito para suportar.

De um pesadelo a outro, descobriremos que a eternidade é o inferno. Nos momentos de menor desespero, sonharemos com a boa e saudável finitude. Por que não nascemos simples vaga-lumes?

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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