E se o futuro for o próximo capítulo… (por Elson Pimentel)

Há muitos anos, assistia com minha primeira mulher, a Bete, ao filme [...]

Há muitos anos, assistia com minha primeira mulher, a Bete, ao filme Mar adentro (Amenábar, 2004). O filme contava a história de Ramón Sampedro, que ficou tetraplégico depois de um acidente de mergulho e passou anos lutando pelo direito de morrer.

Em algum momento, a Bete comentou: “Se algum dia eu ficar assim, pode desligar os aparelhos”. Respondi imediatamente: “Não posso. Fazer isso é crime”.

De tempos em tempos, essa questão aparecia em nossas conversas. A situação era hipotética, mas, como ela já havia feito duas cirurgias cardíacas, era uma situação plausível de acontecer. Para mim, a resposta era simples; para ela, não. Mesmo com vida ativa, mas controlada, a Bete era sempre sobressaltada pela ideia de como seria viver durante anos presa a uma cama, dependente de outras pessoas para quase tudo. Parecia razoável supor que uma vida assim seria insuportável.

Um ano depois do filme, a hipótese deixou de ser hipótese. Bete sofreu um AVC grave. Ficou acamada e assim permaneceu durante quatorze anos, até morrer.

A expectativa do próximo capítulo

Durante todo aquele tempo, sempre esteve presente em mim aquela conversa diante de Mar adentro.

Quando ficou claro que aquela situação era irreversível, algumas pessoas perguntavam, por compaixão, se não seria possível abreviar o sofrimento. Eu respondia: a mulher que, diante do filme, rejeitava aquela vida, podia realmente prever o que desejaria ao vivê-la?

Não tenho como responder. Mas alguns comportamentos da Bete me chamavam a atenção.

Quando chegava de alguma viagem, era emocionante o sorriso com que me recebia.

E diariamente, quando assistia à televisão, sentia que acompanhava atentamente as novelas. E cogitei: a partir de agora, o desenrolar da vida da Bete talvez seja a expectativa do próximo capítulo.

Na época, eu estava descrevendo uma rotina, mas a frase já me intrigava.

O futuro como próximo capítulo

Costumamos organizar a vida em torno de projetos e acontecimentos futuros. Para a Bete, depois do AVC, esse horizonte havia se estreitado enormemente. Talvez o futuro pudesse ser apenas o próximo capítulo.

Isso é muito diferente de dizer que ela era feliz. Não sei se era. Não sei quanto sofria, nem como avaliava intimamente a própria existência. E seria abusivo tentar reconstruir agora pensamentos que ela não podia me comunicar plenamente. Mas sei que havia expectativa.

E esse pequeno fato começou a modificar minha maneira de pensar aquela conversa antiga.

Quem estava falando diante de Mar adentro?

A Bete que assistia ao filme imaginava uma vida acamada a partir do mundo de uma pessoa que não estava acamada. Seus critérios eram os de quem conhecia a autonomia, a mobilidade, as atividades e os projetos de sua vida de então. Ela tentava imaginar outro modo de existência sem poder habitá-lo.

Esse problema é conhecido pela psicologia e pela bioética. Pessoas saudáveis frequentemente imaginam que incapacidades graves tornariam sua vida quase intolerável. No entanto, muitas pessoas que efetivamente vivem com essas limitações avaliam sua qualidade de vida de maneira melhor do que observadores externos esperariam. Essa diferença ficou conhecida como paradoxo da deficiência (disability paradox).

Isso não significa que o sofrimento seja ilusório, nem permite concluir que a Bete estivesse satisfeita com sua condição. O paradoxo põe em dúvida outra coisa: nossa capacidade de prever hoje como avaliaremos uma vida profundamente diferente amanhã. Mudadas as circunstâncias, podem mudar também expectativas, pontos de comparação e aquilo a que atribuímos valor.

Talvez a expectativa do próximo capítulo da novela tenha alguma coisa a nos dizer sobre isso.

Tentamos imaginar o futuro levando conosco os valores do presente. Mas o futuro pode mudar os valores com os quais será avaliado.

Um ‘eu’ decide pelo outro

Em Breakdown of Will (2001), George Ainslie questiona a imagem de um indivíduo inteiramente coerente, cujas preferências atravessariam os anos sem conflitos. Fazemos compromissos conosco mesmos e tentamos impedir que um ‘eu’ posterior desfaça aquilo que um ‘eu’ anterior decidiu. O caso da Bete era mais radical: a própria transformação de suas condições de vida poderia modificar aquilo que teria valor para ela.

Mas até que ponto o ‘eu’ presente pode falar em nome de um ‘eu’ futuro cujas circunstâncias e preferências poderão ser profundamente diferentes?

Qual Bete deveria decidir?

Ronald Dworkin (Domínio da vida, 1993) acrescenta outra dificuldade ao problema. Ao discutir questões do fim da vida, ele distingue entre interesses ligados às experiências que temos em determinado momento e interesses mais profundos sobre a maneira como desejamos que nossa vida, considerada como um todo, seja conduzida.

A distinção produz um conflito perturbador.

A Bete que assistia ao filme possuía uma determinada concepção da vida que gostaria de viver. Essa concepção deveria governar a Bete que existiria anos depois? Ou, se a Bete depois do AVC ainda encontrava algum interesse ou valor no mundo — numa visita, numa conversa, numa música ou simplesmente no próximo capítulo da novela —, aquilo que ainda lhe importava deveria prevalecer?

Não sei. E talvez o mais importante seja justamente reconhecer que não sei.

Durante muito tempo, achei que o problema daquela conversa diante de Mar adentro fosse saber se seria certo ou errado desligar os aparelhos.

Hoje penso que a questão anterior é mais difícil. Precisamos perguntar: quem estaria autorizando quem?

O futuro não muda apenas as circunstâncias

Em muitas decisões sobre o futuro há uma suposição silenciosa: aquele que receberá suas consequências será, fundamentalmente, a mesma pessoa que hoje decide. Mas doenças, acidentes, envelhecimento e outras transformações profundas podem alterar não apenas nossas circunstâncias, mas também nossa maneira de desejar, avaliar e experimentar a vida.

Foi isso que aquela conversa com a Bete me ensinou. Dentro do cinema, ao assistir ao filme, ela tentou imaginar uma vida futura e decidiu que não gostaria dela.

Depois, o futuro chegou. Não sei se ela mudou de opinião. Não sei sequer se essa é a maneira correta de formular a questão.

Sei apenas que, durante aqueles anos, às vezes eu a via diante da televisão, acompanhando atentamente uma história.

Terminava um capítulo. No dia seguinte haveria outro. Talvez fosse muito pouco quando visto da perspectiva daquela mulher ativa, que trabalhava e pintava.

Mas quem pode garantir que era pouco para a mulher que agora talvez esperasse pelo próximo capítulo? Pode ser que uma das dificuldades mais profundas de decidir racionalmente sobre o futuro esteja justamente aí: não sabemos apenas o que vai acontecer conosco. Não sabemos inteiramente quem seremos quando acontecer.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

Autor de Dilema do Prisioneiro: da Teoria dos Jogos à Ética

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