
A questão da passagem “da potência ao ato” conduz inevitavelmente a uma pergunta de natureza política: como transformar uma intenção individual em ação coletiva? A pergunta parece simples, mas talvez contenha uma dificuldade que frequentemente deixamos de considerar: a ação humana não se desenvolve segundo uma cadeia causal previsível, na qual potência, intenção, ato e resultado se sucederiam de maneira ordenada.
Não me parece existir uma lógica cartesiana entre potência → intenção → ato → resultado. Entre esses termos abre-se um espaço ocupado pela contingência, pelo acaso, pelas circunstâncias históricas e por acontecimentos que não podemos controlar nem prever. Uma intenção pode ser poderosa e, ainda assim, não produzir o ato esperado; um ato aparentemente insignificante pode desencadear consequências extraordinárias. A potência não garante a realização, assim como a intenção não assegura o resultado.
É nesse ponto que a antiga presença do acaso na experiência humana ganha novamente importância. Aquilo que alguns atribuem à sorte, outros ao destino e outros ainda à “fortuna” — essa força imprevisível que atravessa a existência — recorda-nos que jamais somos inteiramente senhores das consequências de nossas escolhas. O ditado popular “Tudo já está escrito nas estrelas” pode parecer uma expressão ingênua do determinismo, mas também pode ser lido como uma intuição acerca dos limites da vontade humana diante daquilo que lhe escapa.
A história da humanidade parece confirmar essa condição. O passado não possui uma capacidade preditiva absoluta sobre o futuro. Podemos aprender com a experiência, reconstruir trajetórias, identificar regularidades e reconhecer padrões; mas nenhum conhecimento do passado nos permite eliminar a contingência. O futuro permanece aberto justamente porque a ação humana ocorre em um campo no qual múltiplas possibilidades se cruzam.
Talvez essa percepção seja ainda mais aguda no mundo contemporâneo. A incerteza deixou de ser apenas uma circunstância da vida para tornar-se uma de suas condições estruturais. Vivemos em um mundo no qual acontecimentos políticos, econômicos, tecnológicos e sociais se sucedem em uma velocidade que frequentemente ultrapassa nossa capacidade de compreendê-los e, sobretudo, de antecipá-los.
Nós, os que chegamos à velhice com as cabeças brancas, fomos educados sob outra expectativa. Aprendemos, em grande medida, a acreditar que havia uma relação relativamente estável entre intenção, esforço, conduta e realização. Acreditávamos que, se desejássemos algo, estabelecêssemos um objetivo e adotássemos os meios adequados, haveria uma razoável possibilidade de alcançá-lo.
Ledo engano.
Talvez essa crença nunca tenha correspondido inteiramente à realidade, mas o mundo em que fomos socializados oferecia a impressão de que a relação entre ação e consequência era mais inteligível do que hoje. O mundo contemporâneo dissolveu parte dessa confiança. A capacidade preditiva se esvai diante da velocidade das transformações e da multiplicação das variáveis que interferem na vida individual e coletiva.
No pequeno mundo de cada indivíduo existe, desde o início, uma condição de fragilidade. Somos dependentes de outros, das instituições, das circunstâncias e de conhecimentos que não possuímos. Nossa autonomia é real, mas é uma autonomia situada: podemos escolher e agir, porém sempre dentro de condições que não escolhemos.
Diante da dificuldade de agir, esperamos frequentemente que alguém dê o primeiro passo. Esperamos que o outro manifeste a iniciativa, assuma o risco, produza o movimento inicial. E então nos tornamos, de certo modo, caronas da ação alheia.
O problema político aparece quando todos esperam o primeiro movimento do outro.
Nesse caso, a soma de indivíduos potencialmente dispostos a agir não produz necessariamente uma ação coletiva. Podemos ter muitas intenções individuais e, ainda assim, nenhuma ação comum. A existência de uma vontade compartilhada não significa necessariamente a existência de uma potência coletiva.
Há, portanto, um intervalo entre o querer individual e o agir coletivo. E talvez esse intervalo seja um dos problemas fundamentais da política.
O artigo parece justamente deslocar o olhar para esses micromundos, constituídos por pequenos grupos de indivíduos que vivem e atuam dentro de um mundo incomparavelmente maior, marcado por instabilidades que reduzem ou, em certos momentos, parecem até sucatear nossas antigas potências de ação.
Essa experiência é particularmente evidente na relação entre gerações.
Nós acreditávamos possuir saberes que seriam transmitidos às gerações seguintes. A transmissão do conhecimento fazia parte da própria ideia de continuidade histórica: os mais velhos ensinariam aos mais jovens aquilo que haviam aprendido ao longo da vida. Entretanto, alguma coisa se inverteu.
Hoje, são frequentemente os nossos netos que se encontram na vanguarda de determinados saberes. São eles que dominam linguagens, tecnologias e instrumentos indispensáveis para a realização de tarefas que, para nós, parecem banais. Para fazer coisas comezinhas, dependemos de técnicas que não dominamos e de uma linguagem que muitas vezes não é a nossa.
Essa inversão produz uma experiência peculiar de perda de potência.
Não se trata simplesmente de ignorância diante da tecnologia. Trata-se de algo mais profundo: a sensação de que conhecimentos acumulados durante uma vida inteira já não são suficientes para nos conferir autonomia no mundo em que vivemos.
Aquele que durante décadas foi considerado portador do saber passa, em determinadas circunstâncias, a depender daquele que supostamente deveria aprender com ele.
É uma pequena revolução silenciosa nas relações entre as gerações.
E talvez essa experiência individual seja uma miniatura de uma experiência política mais ampla. Somos autônomos, mas nossa autonomia é atravessada por dependências. Possuímos vontade, mas não controlamos as condições nas quais essa vontade deverá se realizar. Podemos iniciar uma ação, mas não determinar suas consequências. Temos intenções, mas o mundo não se organiza necessariamente de acordo com elas.
Por isso, a passagem da potência ao ato nunca é garantida.
Entre uma e outro existe a contingência. Existe o outro. Existe a celeridade das inovações tecnológicas. Existe o confronto entre países. Existem as estruturas sociais. Existem as circunstâncias históricas. Existe o acaso. Existe aquilo que não sabemos e aquilo que não podemos controlar.
Talvez seja justamente por isso que a ação coletiva seja tão difícil.
A ação coletiva exige que indivíduos frágeis, limitados e incertos consigam, em algum momento, ultrapassar a espera recíproca e produzir um movimento comum. Não basta que cada um possua potência; é preciso que essas potências se encontrem. Não basta haver intenção; é necessário que a intenção se converta em ação compartilhada.
Mas mesmo quando isso acontece, permanece a incerteza.
A ação coletiva pode produzir exatamente o resultado desejado — ou produzir algo completamente diferente. Pode fracassar, pode ser apropriada por outros, pode desencadear consequências imprevistas ou pode abrir possibilidades que ninguém havia imaginado.
Agir, portanto, é sempre correr o risco de entrar em um território que não dominamos.
Talvez a política seja, em última instância, a arte de agir sem a garantia do resultado.
É nesse ponto que a autonomia humana revela simultaneamente sua força e sua fragilidade. Somos livres o suficiente para agir, mas não poderosos o suficiente para determinar o mundo que resultará de nossas ações.
O viver é incerto.
E talvez tenhamos de abandonar definitivamente a antiga esperança de que uma intenção suficientemente clara, acompanhada da conduta correta, conduzirá necessariamente ao resultado desejado. Essa crença pertence a um mundo no qual imaginávamos existir uma correspondência mais estável entre vontade e realização.
No mundo contemporâneo, essa correspondência se rompeu de maneira mais visível.
Temos potência, mas não temos garantia. Temos autonomia, mas não controle. Temos intenção, mas não previsibilidade. Podemos agir, mas não somos donos das consequências de nossos atos.
A questão decisiva, então, talvez não seja mais perguntar como garantir que a intenção produza o resultado desejado. A pergunta talvez seja outra: como construir uma ação coletiva em um mundo no qual já sabemos, de antemão, que não controlamos seus resultados?
Essa talvez seja a condição política de nosso tempo: agir não apesar da incerteza, mas dentro dela.
Maria Hanai
Doutora em Sociologia pela USP (Universidade de São Paulo)



