A banalização da barbárie e o eco da multidão nas ruas (por Nelson Luiz Ferreira Pinto)

A calçada carioca registrou mais uma execução sumária. Em Copacabana, o analista administrativo [...]

A calçada carioca registrou mais uma execução sumária. Em Copacabana, o analista administrativo Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, que lidava com transtornos mentais, empurrava a bicicleta da irmã quando foi abordado por agentes de um serviço informal de segurança. Acusado sem provas de furto, acabou cercado e espancado com golpes na cabeça e pontapés por pessoas atraídas pelo tumulto. Socorrido com traumatismo craniano, não resistiu. Era inocente.

O episódio repete uma tragédia conhecida em outras regiões do país, como o caso de 2014 no litoral paulista, quando um boato difundido na internet culminou na morte de uma dona de casa. No Rio de Janeiro, no entanto, essas cenas vêm acompanhadas por um ingrediente alarmante: a apatia ou o apoio verbal de quem assiste. O que se vê é uma progressiva banalização dos linchamentos, transformados quase em rotina diante da qual a sociedade parece anestesiada.

Essa violência coletiva aponta diretamente para a descrença nas instituições públicas. Diante da lentidão da Justiça e da sensação crônica de impunidade, parte da população passa a desacreditar dos mecanismos legais.

No calor do conflito, o indivíduo que se junta à agressão sofre uma mutação psicológica: ao fundir-se à massa, ele perde a individualidade e a responsabilidade pessoal. A responsabilidade pelo ato se dilui no grupo, permitindo que cidadãos comuns adotem regras arbitrárias de punição instantânea. A pessoa apontada como suspeita deixa de ser vista como um ser humano com direito à defesa e passa a ser tratada como um alvo a ser neutralizado.

No Rio de Janeiro, esse comportamento encontra terreno fértil em fatores estruturais. A divisão do território entre o controle de facções, milícias e o Estado cria um ambiente permanente de tensão e estresse que corrói a tolerância social.

A isso soma-se a proliferação de uma segurança privada informal e o papel das redes sociais, que transformam tumultos e pequenos delitos em espetáculos instantâneos. Vídeos circulam com rapidez, incitando reações raivosas e eliminando os freios éticos da convivência. Quando a sociedade passa a tolerar ou aplaudir a morte sumária na praça ou na calçada, o que racha não é apenas a segurança pública, mas a própria base da civilidade.

Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado

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